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Espaço de comunicação que se espera interactivo, este é um instrumento que permite estar próximo de amigos,presentes e futuros, cujas contingências da vida tornam distantes mas nem por isso menos merecedores de estimas e afectos.


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sexta-feira, 20 de julho de 2018

Tolerâncias e intolerâncias na Escola Multicultural

A coexistência de culturas, em sociedades cada vez mais pluriculturais (que exacerbados imperativos migratórios acarretam) é, hoje, ditada por imperativos de diferenciação económica entre países (de um fosso económico cada vez maior) e de facilidades de informação e deslocação planetárias. Entretanto, vivemos numa sociedade que tende para a globalização, não só económica e comunicacional mas, ainda, de valores e de princípios, que tendem, cada vez mais, para universais e humanistas. Mas, tender não é necessariamente chegar! Muito longe disso! Diferenças étnicas subsistem, naturalmente: perenes em termos físicos e de mudança lenta em termos culturais. E assim irão continuar! È, portanto imperioso, aprendermos a viver com grupos e indivíduos portadores de valores e costumes manifestamente diferentes dos nossos. Na Sociedade e na Escola! Transportando-nos isto à, assim denominada, “Escola Intercultural”, e à reflexão que se impõe sobre o racismo e a xenofobia, sobre a tolerância e a intolerância face ao “outro”, numa Escola que se quer verdadeiramente do século XXI. E o primeiro aspeto que devemos ter em conta, é que se trata de uma problemática complexa; De complexas causas, de complexas motivações atuais e, naturalmente, de complexas, abrangentes e delicadas soluções. Pressupostos de intolerância Comecemos por nos debruçar sobre as estruturas subjacentes às atitudes de intolerância, tanto na sua componente cognitiva (como se sabe, em grande parte estereotipada), até à social (não menos importante) passando, igualmente, por uma vertente emocional omnipresente e, frequentemente, culpabilizadora. Como se sabe, os estereótipos pressupõem uma simplificação da realidade social, simbolizando-a e tornando-a, funcionalmente, mais percetível e identificável. Por exemplo, em termos de identificação dos grupos humanos, a estereotipação tende a entendê-los como de um indivíduo só se tratasse, sem reconhecer as, naturais diferenças (ou, mais rigorosamente as infinitas diferenças), das personalidades que os constituem. O caso mais extremo desta categorização, pode ser exemplificado pelo pensamento dicotómico; isento de matizes e situações intermédias. São brancos ou pretos, bons ou maus, amigos ou inimigos, “nós” ou os “outros”. Assim, um eventual estigma envolve todos os indivíduos do grupo considerado, não tendo em conta diferenças de idade, sexo, estatuto social, formação cultural ou quaisquer outras. Correspondem a uma visão da realidade muitas vezes irracional (emotiva, se quisermos), mas com que deparamos frequentemente; e que, de alguma forma, envolve o nosso quotidiano. Esta categorização bipartida leva-nos, depois, a identificar os outros por uma perceção simplista e arquétipa de um qualquer aspeto físico (principalmente) ou cultural, ignorando-se porém, de forma muitas vezes ostensiva, as restantes particularidades. Tal atitude, discriminatória já, potencia-se depois, especialmente quando se funde com outros aspetos de carácter (por exemplo, quando o indivíduo pertence a um grupo com menor poder ou prestígio) ou emocionais: por exemplo, quando o mesmo indivíduo ou grupo são vistos como uma ameaça. Ensaiemos, então, um esboço de síntese caracterológica das razões psicossociais que podem levar a incrementar estas visões discriminatórias, aumentado o risco da intolerância face aos outros. - Centrar a nossa atenção nas diferenças entre nós e os outros, tende a exagerar tais diferenças em detrimento das semelhanças. - A eclosão de dois fatores considerados potencialmente ou efetivamente negativos (por exemplo a chegada de emigrantes e o incremento da droga, da criminalidade ou até do desemprego) tende a relacionar os mesmos num contexto absoluto e linear de causa e efeito. - Os próprios estereótipos guiam a nossa interpretação da realidade e criam memórias seletivas dos acontecimentos, o que dificulta a sua superação. Digamos que, os dados positivos são considerados como exceção, os negativos como prova! - Finalmente, mesmo que venhamos a considerar positivamente um qualquer indivíduo doutro grupo/cultura, o estereótipo impede que generalizemos essa apreciação. Será visto, mais uma vez, como uma exceção. Uma pessoa por quem temos estima, não porque,... mas,... apesar de! Na verdade, grande parte da nossa intolerância resulta de situações essencialmente emocionais que, embora possamos dizer não resistiriam a uma simples análise metodológica, dominam e persistem, numa irracionalidade muitas vezes cega mas, nem por isso, menos eficaz! Nós e os “Outros” Por exemplo, os “bodes expiatórios”, decorrentes da culpabilização dos “Outros” face a situações vigentes de tensão e frustração ou, até, de instabilidade social ou económica. A história recente do Povo Judeu, numa Europa supostamente humanista, é bem paradigma, lamentável, de tal pressuposto. A isto podemos juntar a necessidade de afirmação do “nosso grupo” face ao “outro”, ao estranho, reforçando a nossa coesão, mas igualmente o nosso estatuto interno e, obviamente a efetiva integração no mesmo. E aqui, podemos dizer que existem dois vetores que tendem a potenciar esta atitude: por um lado o reforço da nossa identidade construída assim por oposição aos outros, por outro, a criação do inimigo externo, tornado assim ”bode expiatório” de todos os males e mais alguns. Situação que não deixa sequer, muitas vezes, emergir a natural empatia e solidariedade para com o marginalizado e discriminado. E, o mais paradoxal, é que nos baseamos numa perceção pretensamente ética, acreditando (querendo acreditar) que o outro é o único (ou principal) culpado da sua situação. Deus ou a Natureza, determinismos ou fatalidades conjunturais, razões aleatórias ou pressupostos primevos, são vistos como causas explícitas e implícitas, que sustentam inferioridades evolutivas técnicas ou económicas, políticas ou sociais, justificadas assim e, supostamente fundamentadas, pela ausência ou menoridade de capacidades ou de conhecimentos considerados próprios de gente civilizada! Entre outras coisas, isto descansa a nossa consciência! São, portanto, atitudes deformadas da perceção da realidade que nos levam, muitas vezes, a encarar os outros como inferiores ou piores. Deformações que resultam de manifestas expressões de interesse e solidariedade grupal, do desconhecimento, do horror à diferença, quantas vezes... do medo! Atitudes preconceituosas, que servem, frequentemente, para legitimar diferenças grupais de estatuto e poder. Foi, aliás, considerando os escravos e os “selvagens” como “naturalmente inferiores”, que se justificaram durante séculos, genocídios e expropriações de bens, de territórios e, até, da própria dignidade humana. A escola e a diferença De tudo isto se deduz que não basta abrir as nossas escolas a outras culturas étnicas. Nem incluir elementos culturais que lhe são próprios, no currículo escolar. Nem sequer (e dando já de barato o complexo de dificuldades associadas a esta estratégia) abrir a Escola à Sociedade em que esta está inserida. É preciso tudo isso! Mas, convenhamos, bem mais do que isso! È preciso que o docente seja mais que um papagueador do programa. Mais que um simples catalisador, mesmo que fluente, da transmissão do conteúdo programático aos discentes. Que não se reduza a reconhecer a presença de outras realidades culturais na sala de aula. Que não as encare como expressões pitorescas de singularidades étnicas. Que não as veja como variantes do modelo padrão existente entre nós. Que não trate os seus portadores como uma espécie de atrações circenses, nem expresse, por eles, um paternalismo quantas vezes humilhante! Mesmo que bem intencionado! É preciso que esteja sensibilizado para a naturalidade da diferença, que o etnocentrismo tantas vezes subverte, implícita ou explicitamente. Que veja na diferença não um obstáculo, mas um estímulo! Não uma contradição, mas um enriquecimento dos valores patrimoniais em presença! Que perceba que as diferenças entre as culturas (que os diferentes grupos humanos veiculam), são profundamente influenciadas pelo contexto social e pela transitoriedade histórica. Por opções de progresso e por diferenças de oportunidade. Que, por exemplo, já na África existiam grandes civilizações, capazes de erigir construções ciclópicas (consideradas hoje maravilhas do mundo), ainda os europeus corriam atrás de bisontes com machados de pedra! Estará então dotado de condições psicossociais para vir a desenvolver mecanismos pedagógicos e vivenciais que permitam aos alunos tolerar melhor a incerteza (que é nossa companheira inseparável no mundo de hoje), de forma a fazer consolidar identidades em formação sem necessidade de o fazer contra quem quer que seja. Promovendo e estimulando contactos intergrupais e interpessoais. De forma a descobrir que somos, ao mesmo tempo, iguais e diferentes: homens e mulheres, europeus e africanos, “gadjés” e ciganos, cristãos e muçulmanos, indivíduos com ou sem “necessidades especiais”. Vivendo a tolerância como valor; nunca como obrigação. Mesmo que revestida do prestígio humanista contemporâneo. Estará, então, em condições de ajudar a fazer de uma Escola com todos, uma Escola para todos. Ou, se quisermos, uma Escola de todos! Assim lhe sejam fornecidas condições instrumentais, temporais e, principalmente, psicossociais. De que, hoje, tanto carecem.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

O Ano do Centenário

Terminou o Ano do Centenário. Com Papa e sem Papa, sucederam-se diversas iniciativas (cerimoniais ou não), bem como emergiu toda uma peculiar torrente editorial, aproveitando, afinal, a boleia do momento. A grande maioria de um de dois tipos: os apologéticos e confessionais: envolvendo, às vezes, a apreciação histórica e a contribuição papal e os pseudo memoriais; recolhendo testemunhos de personagens mais ou menos relevantes da sociedade portuguesa; estratégia, afinal, sempre eficaz. Congressos, simpósios e produções audiovisuais, ensaiaram supostos contraditórios. Suficientes, para relevar diferenças. Insuficientes, para constituírem opção conclusiva. Estudos, percecionando os factos nucleares disponíveis e conhecidos enquanto meros dados de pesquisa, contam-se pelos dedos de uma mão. E,… ainda sobram dedos! Mesmo assim constituíram uma singularidade mais ou menos insólita. Dir-se-á, portanto que, também por isto, alguns factos se vão tornando menos interditos. Algumas análises, menos constrangidas. Algumas conclusões, menos estigmatizadas. Sintetizemos então, à guisa de reflexão, os traços básicos de uma fatimologia atual que, apesar de tudo, vai adquirindo traços mais claros; enquanto dicotomia mais ou menos interativa entre o objetivo facto científico e o subjetivo dado de fé. - Aparições como a de Fátima constituem fenómenos bem mais frequentes do que é suposto à primeira vista. - Afinal, em alturas particularmente difíceis, as súplicas tornam-se especialmente fervorosas e as relações entre Deus e os Homens tendem a assumir um carácter direto e imediato. - Estabelece-se, assim, um atalho na relação com a esfera do Divino. E a intermediação clerical torna-se dispensável. – No caso de Fátima, a conflitualidade entre o Governo da República e a Igreja foi o principal fator que despoletou os fenómenos. - Assente, este, em propícias condições socioculturais e na existência de potenciais videntes; possuidores de marcantes propensões alucinatórias. - Videntes que participam, sempre, de especiais idiossincrasias. Sentem-se como “escolhidos” por Deus; seus “mensageiros na Terra”. - São muitas vezes pessoas simples, de formação cultural baixa, emotivos e impressionáveis, levando uma existência dura e boçal, quantas vezes sofrida, sem perspectivas de melhoria. - Para eles o mundo é palco de uma luta entre o bem e o mal. Luta perpétua, em que o mal confere, de alguma forma, sentido ao bem e um importante desígnio ao respetivo sofrimento. - A aparição proporciona-lhes uma importante rutura com o quotidiano. Que os resgata à banalidade prosaica da sua existência e confere uma razão de ser à mesma. Tornam-se a mão direita de Deus. Representantes, na Terra, dos interesses do Céu. - São quase sempre sinceros e convictos da “sua” verdade (por mais delirante que seja) e mesmo que os faça sofrer. Quando, não, buscando mesmo o soteriológico sofrimento. - A inclusão de confidências e “segredos” transforma-os em confidentes da divindade. - Neste caso, só Lúcia é vidente e confidente. As aparições são ela! – À semelhança de La Salette e Lurdes, no princípio Fátima constitui um acontecimento meramente popular e local. - As conversas, extremamente prosaicas (próprias da idade de Lúcia), são meramente locais; a preocupação com a Guerra, as mortes e as doenças de vizinhos e conhecidos. - Afinal, trata-se de crianças; em que o real e o simbólico de uma teologia necessariamente prosaica, se confundem em inconsciente simbiose. - Fátima partilha, aliás, de um modelo usual à época: crianças, pastoras, local ermo, dureza de vida, acidente geofísico, construção de um templo, milagre probatório: nascente milagrosa, prodígio do sol, curas sobrenaturais. - Entre diversos outros temas, nem o “Anjo”, nem o “Imaculado Coração de Maria”, nem as referências à Rússia, nem sequer os famosos “Três Segredos”, constam dos testemunhos primevos. - O usual, nestes fenómenos é a rejeição por parte da Igreja. Pois, os mesmos, dispensam e menorizam o papel de intermediários dos sacerdotes. - Na verdade, aceitar que Deus resolve atalhar a sua comunicação com os Homens escolhendo, para tal, uma criança ou um personagem banal (quantas vezes simplório), não é fácil. - Daí, também, a desconfiança do Pároco de Fátima. E do Cardeal Mendes Belo. Percebe-se, contudo, desde o início, uma atitude de abertura/apoio de alguns clérigos (como o Cônego Formigão) de especial influência na Região. - Entre 1917 e 1920/1 o processo mantêm-se como que em suspenso; esperando-se tempos mais favoráveis. A partir daí, tudo começa a mudar. - A morte de dois dos videntes e a colocação, na recriada Diocese de Leiria, de um bispo especialmente devoto do marianismo, criam as condições determinantes que levarão à implementação do Santuário. - Tal como aconteceu com Lúcia, a colocação dos videntes a recato é, nestes casos, condição necessária ao gradual reconhecimento. - As configurações das entidades manifestadas neste tipo de fenómenos são modeladas pelas particularidades etno-culturais em presença. Refletem os modelos estereotipados que imagens e gravuras iconográficas apresentam em templos ou publicações mais ou menos catecúmenas. – Também as linguagens e preocupações demonstradas pela “Senhora” são, naturalmente, aquelas que uma criança daquele tempo, daquela idade e daquele lugar, poderia conceber. - Podemos dizer que os testemunhos primevos, são aqui especialmente prosaicos, breves, frios e de uma confrangedora falta de assunto. Tudo se resume “à Guerra” e ao desagravo pelos “pecados do mundo”. – As profecias sagradas são, quase sempre, contingentes, eventuais ou controladas pelo profeta. Ou, até, constituindo revelações posteriores ao acontecimento. O que não aconteceu, de todo, em Fátima, com a profecia, falhada, do “fim da guerra”. – Os fenómenos de rotação solar são parte integrante da nossa tradição popular. Acreditando-se, por exemplo, que ocorrem ciclicamente em alturas especiais do ano; como as alvoradas do dia de São João, de Natal ou do 1º de Maio. - São condição de especificidades atmosféricas que, pela sua singularidade (vista como prodigiosa) e pelo frenético misticismo em presença surge, quase sempre, associadas a estes fenómenos. - Após década e meia de completo isolamento Lúcia, em 1936, estava convencida que Fátima tinha acabado. – Contudo, passado que foi o tempo de criação material do santuário, estavam criadas as condições para a necessária adequação e elaboração dos testemunhos a que alguns chamaram Fátima II. - Deste modo logo, a mesma, se tornará alvo de sucessivos pedidos; solicitando-lhe novas versões dos testemunhos, bem como reconversões dos respetivos contextos sociais e familiares. – As “Memórias de Lúcia” constituirão, assim, um processo dirigido e controlado de adequação (reformulação, adição e, aqui e ali, omissão) dos testemunhos primevos. Transformando textos prosaicos e simplórios, em extensos e eruditos escritos doutrinários - Criar-se-ão os famosos “Segredos”, as referências ao Imaculado Coração de Maria e Sagrado Coração de Jesus e uma singular multiplicação dos fenómenos de vidência pré e, principalmente, pós 1917. - O nacionalismo que o culto desenvolveu no santuário, há-de promover e catalisar o, algo surreal, “Anjo de Portugal”. – Fátima tornar-se-á, entretanto, um santuário institucional controlado, em que o lúdico/subversivo popular (tão comum às romarias portuguesas) foi combatido desde muito cedo – Transformar-se-á, gradualmente no, hoje tão badalado, grande “altar do mundo”. Dando corpo à consagração do domínio do marianismo na Igreja. - Tornando-se importante fenómeno global; tanto social, como económico e turístico. - Afinal os santos, tal como os deuses, precisam tanto de nós como nós deles. A sua importância, é resultado, direto e proporcional, das respetivas devoções. – Fátima é, assim, o aproveitamento (em condições propícias) de um fenómeno hierofânico várias vezes verificado e repetido em diversos tempos, com diversas configurações e em diversificados cenários estruturais e conjunturais Esclareça-se, finalmente, que ao contrário do que alguns sustentam, não são conhecidos dados minimamente sustentáveis que indiciem a existência de uma potencial fraude: entenda-se algo construído, desde o início, com o propósito prévio e consciente de enganar. A

Iria, Deusa das Águas

É por demais conhecida a lenda da mártir Iria, jovem e formosa, alvo de lascivos e doentios desejos, vilmente assassinada e lançada às águas, que a transportaram carinhosamente nos braços até fundear frente a Scálabis, onde permanece ainda hoje num ignoto (mas, por isso mesmo, ainda mais maravilhoso) túmulo de alabastro, construído, com certeza, pelas potências celestes e escondido do mundo pelas águas protetoras do Tejo. Resistindo a todos os esforços para a deslocar, a mesma manifestou assim, de forma indubitável, o desejo de aí continuar, justificando portanto, em sua honra, a renomeação da velha urbe, de Scálabis para Santa Iria ou Santa Irene. Igualmente em sua honra, diz ainda a lenda, D. Dinis mandou erguer sobre o túmulo (pela última vez mostrado, a rogo da “Rainha Santa”) um consagratório padrão que, dois séculos e meio depois, a Câmara de Santarém terá mandado revestir de cantaria, colocando no seu topo a “imagem” da Santa, ainda hoje, aí, alvo de devoção popular. Dela, diz a crença popular, que se as águas das cheias alguma vez lhe chegarem aos pés... o mundo acabará! Na verdade, enquanto simbólica de todas as hilogenias, a imersão equivale no plano humano à morte e, no plano cósmico, ao dilúvio, que dissolve periodicamente o mundo no oceano primordial. Faceta que é, afinal, de uma natureza imprevisível. Uma faceta violenta e radical, com certeza, mas que "não destrói senão as formas esgotadas e consumidas". Na verdade, a imersão não corresponde, nunca, a uma extinção definitiva: apenas a uma reintegração passageira no indiferenciado, à qual se sucede, inevitavelmente, uma nova existência; seja biológica, seja virtual ou soteriológica. Pois a cada uma destas destruições de uma velha realidade, segue-se sempre um novo período, uma nova era, um novo Homem! Porque o “novo” provém do “velho” e a sua eclosão pressupõe a morte prévia do degenerado, do desgastado. As lendas diluvianas consubstanciam, portanto, a essência mítica da regeneração cíclica, modelo de revitalização das energias cósmicas, que o regresso ritual e cíclico ao limbo primordial permite acontecer. Princípio do aleatório, as águas precedem a criação, reintegrando-a depois periodicamente por absorção, fundindo-a temporariamente no caos niilista, donde há-de emergir renovada; entenda-se recriada. Desintegrando as formas, abolem a história (isto é o passado) possuindo deste modo as virtudes do esquecimento e capacidades de purificação e renascimento. Quem delas emerge, transforma-se numa nova entidade; pura, isenta de pecados, rejuvenescida. Ciclicamente, como acontece no batismo! Ou de uma forma mais perene e prolongada. A imersão mítica e dramática de Iria irá dotá-la, portanto, de uma nova natureza; renascendo numa outra dimensão, próxima, agora, da esfera do divino! Resultando de um drama de inimaginável violência (assim se potenciando a intensidade energética própria dos tempos de transição), esta adquire os atributos de uma divindade das águas, logo da regeneração e da fertilidade, naturalmente dos campos e da agricultura. Preside e regula as “cheias” que ciclicamente arrasam os campos e os fertilizam, que destroem e criam, num contexto operatório e, inclusive catársico, da morte/renascimento. Aliás, as antigas divindades da agricultura ou da fertilidade (como Cibele, Afrodite, Deméter, Atenas ou Prosérpina) com as valências lunares fortemente ligadas, presidiam quase sempre aos ciclos vitais da natureza e deste modo, aos grandes mecanismos do devir cósmico, muitas vezes cataclísmicos, algumas vezes apocalípticos. Outras como Tétis ou Nereu, Escamandro ou Aqueloo, constituíam verdadeiras divindades das águas; dos rios, das fontes, dos lagos. Mas serão as ninfas (chame-se-lhes nereides, náiades, tágides, sereias ou ondinas) divindade menores e mais próximas de uma dimensão popular, que neste contexto serão consideradas como particularmente perigosas, já que seduzem e iludem com cantares enganadores (tanto adultos, como crianças), os quais arrastam irresistivelmente para si e levam, inexoravelmente, à morte. Situação a que não serão alheias, com certeza, as tradicionais mortes por afogamento (noutros tempos bem mais frequentes) em rios, poços e lagos. Em que remoinhos e lodos sugavam corpos e membros e emaranhados de trancos depositados nos fundos se agarravam aos pés quando, aflitiva e desesperadamente, se lutava por vir à superfície. Seja como for, na intensa simbologia das epifanias das águas que os mais diversificados mitos cosmogónicos deram corpo (e os batismos cristianizaram) todas estas divindades nascem das águas onde, aliás, permanecem usualmentes. Também Iria imerge e posteriormente emerge das águas, junto a Santarém, desta forma não só optando por uma tutorização primeva, que tempos posteriores diluíram, mas igualmente renascendo; agora já como potestade meteorológica. Assim, a santa mártir, cujo drama existencial potencia a regeneração, adquire atributos de imortalidade por transubstanciação: diluída nas águas, com estas se funde, numa supressão de formas e lembranças. Desumaniza-se. Torna-se divina! Transforma-se, assim, num elemental das águas, qual “ondina”, eterna e intemporal, supostamente benéfica na dimensão assumida de divinização cristã. Afinal, o tal túmulo de alabastro, pode ser visto como a perspetivação da residência aquífera de uma divindade cristã que, sob as águas repousa, mas que, como todos os santos e santas, se mantem viva e atuante. Neste caso, aliás (como acontece igualmente, por exemplo, com São Torcato ou São Gonçalo), numa dupla e evidente valência; enquanto “imagem” e foco devocional e enquanto corpo/relíquia; que nem por ser existencialmente mítico e ignoto perde, afinal, a sua dimensão arcana e operativa. Mesmo que não se manifeste! Não se revele em episódios mais ou menos hierofânicos. Mesmo quando contingências de uma vivência fluvial, pouco impetuosa, vão deixando o pedestal fora do leito do rio. Apesar de tudo, está lá. Vigilante. Respondendo aos milenares apelos das populações ribeirinhas na apaziguação dos impulsos, quantas vezes violentos, de uma natureza nem sempre serena e aprazível! E embora virada de frente para a cidade que escolheu tutorizar e em grande parte a ignora, Iria, Senhora das Águas, é vista pelas populações como catalisando, ainda, a fertilidade dos campos que as cheias cíclicas fertilizam, mas impedindo as mesmas de assumirem, afinal, contornos catastróficos. Marca, assim, os limites da regularidade, a partir do qual o caos impõe a sua vontade. Assinalando, em última instância, o fim de uma Era e, o sequente, início de outra.

O Solstício de Verão

Numa perspectiva hierofânica que sobrevivências simbólicas e vestígios cultuais permitem ainda perceber nos nossos dias, poder-se-á dizer que o Sol tem sido, na tradição mediterrânea, identificado com ao princípio masculino e com a simbologia do pai e patriarca. Dele emana o poder fecundante, bem como um princípio da autoridade a este intimamente ligado. Mas o Sol é uma potência multifacetada; de diversificadas valências que muitas vezes surgem, até, como ambivalentes. Fecundador da terra, logo símbolo da fertilidade e potência viril. Divindade da luz, logo dador de conhecimento. Caminhante diurno e incansável, deus da beleza, facultador da harmonia e senhor do fogo. É ele que cíclica e quotidianamente imerge no mundo subterrâneo; logo é visitante assíduo do “inferno”, tornando-se assim guia dos mortos! Austero na sua impassibilidade, terrível na sua flamejante energia, os seus vestígios cultuais encontram-se hoje, especialmente, associados às tradições festivas do Natal e dos Santos Populares que herdaram a temporalidade cósmica dos solstícios. É aí, em manifestações de origem pré-cristã como as “fogueiras” ou os “lumes novos”, o “cepo de natal” ou a “missa do galo”, que se perpetuam os símbolos arcaicos das antigas teofanias solares! Aliás, o canto do galo marca, à meia-noite, a inflexão solar própria destes tempos. Assinala em apoteose o fim do período das trevas e da dominância das criaturas do caos e anuncia a luz que a alvorada há-de trazer! E ai! Se o galo canta Que á fatal hora, encantos quebrou E o poder lhes acaba! Pois estas são as épocas anuais em que o Sol atinge o seu clímax de vitalidade ou, pelo contrário, o seu estádio mais baixo de entrópica degeneração. Marcam, assim, tempos críticos de inversão de tendências que ameaçam perpetuar-se. Tempos do fim e do princípio do domínio solar; do tempo que o mesmo consubstancia e das coisas a que dá existência. Apoteose da vida Por isso, na noite dita de São João o prodígio, acredita-se, envolve tudo e todos. O maravilhoso domina. O impossível acontece. É este um tempo divinatório em que, por todo o país, se “deitavam as sortes”; seculares fórmulas adivinhatórias respeitantes ao amor e ao casamento, bem como proliferavam as crenças e práticas difusoras e propiciatórias respeitantes à fertilidade humana e da natureza. São as alcachofras, a erva-pinheira e o manjerico mas, igualmente, as “sortes do bochecho”, do “chumbo derretido” ou da “gema de ovo”! Saltar às fogueiras fomenta nesta altura a fertilidade, acredita-se por toda a Europa. Defumar as casas, purifica e esconjura dos malefícios e “coisas ruins”. Num tempo, afinal, em que por todo o lado proliferavam práticas diversas, tendentes a fertilizar pessoas, campos e animais. Comemora-se aí, deste modo, o apogeu criativo de uma natureza grávida de vida. O comportamento do astro-rei impregna aqui, o lendário popular, de um paradigma de prodígio cósmico e senciente! Sob o seu signo emergem, neste tempo, hierofanias diversas que o imaginário popular perpetua. Acreditava-se, por exemplo, em muitas zonas do país, que o Sol, ao nascer, “dava três voltas” ou “vinha a dançar”. Um pouco por todo o norte da Europa são erguidos mastros nos campos. Em seu redor dança-se, canta-se e bebe-se, durante toda a noite. Os mais jovens desencadeiam perseguições amorosas. Assim se aguarda, em orgiástica alegria, pelo nascer do dia! Também no nosso país as fogueiras dos Santos Populares constituem iniciativas comunitárias, festivas e sedutoras. Festas em que os jovens desempenham o papel dominante, também aqui se queimava ritualmente (normalmente à meia-noite), uma estaca ou uma árvore a que se chamava “mastro”, “carvalho” ou “pinheiro de São João”. Queimava-se, muitas vezes ainda, uma figura antropomorfa, feita de roupas velhas e trapos e recheada de palha. Onde se colocavam, quase sempre, bombas. Ora a noite de São João emerge destes tempos como a misteriosa “noite dos amores”; estimuladora de comportamentos sedutores e sensuais que as diligentes restrições cristãs de séculos não conseguiram, totalmente, erradicar. Por isso as divindades aqui festejadas (São João, Santo António e São Pedro) são vistas, popularmente, como “casamenteiras”. Repletas de um caráter lúbrico e sedutor que impregna todo este tempo. No caso de São João e Santo António, encarados como autênticos “rabos de saia”. Verifica-se, aliás, uma singular homogeneidade nos complexos simbólicos que persistiram através de séculos de particular intolerância. Por toda a Europa este é ainda um tempo sagrado em que o orvalho é “benfazejo” e o “benfazejo” sinónimo de virtuoso! As ervas têm virtude, a água purifica e renova, o fogo fertiliza! Fogos, fumos, orvalhos, ervas, flores e águas, bebendo do sagrado primordial, ligam-se a práticas propiciatórias diversas. Danças e cantos, interligam-se com corridas equestres e “cavalhadas” em que o cavalo assume uma função simbólica dominante. Atitudes de subversão emergem em profusão; próprias de um tempo de rotura com um quotidiano, obrigatoriamente, habitual e disciplinado. Pois este é o “tempo entre os tempos”, onde impera a desordem e a licenciosidade. E neste complexo simbólico São João irá ser identificado com a hierofania pagã da manifestação solar. Pois se Jesus, “o Novo Sol”, é feito nascer a 24 de Dezembro (numa estratégia apropriadora do Natal de Mitra) João, o Batista, é colocado seis meses antes; de acordo com a temporalidade solsticial. É por isso que o Santo é visto muitas vezes como representando o astro diurno. É o precursor. A grande luz! Enfim, outras maneiras de entender o Mundo. Com uma natureza inevitavelmente sagrada e, um cosmos desejavelmente inteligível, inevitavelmente, relacionadas.

A MULHER DO RIBATEJO : MITOS E EQUíVOCOS

Pode-se dizer-se que, tradicionalmente, o papel social da mulher do Ribatejo tem sido objeto de vários equívocos? - O equívoco, afinal, é só um: o de que os carateres de personalidade próprios da mulher ribatejana, que a tradição consagra, eram particularmente humildes e subservientes. Daí decorre, depois, todo um conjunto de erróneas implicações sociais e até culturais. Na verdade, não só tal configuração psicossocial não corresponde à realidade, como a mesma se nos revela aqui, pelo contrário, uma personagem bem mais autónoma e afirmativa; se comparada com a mulher de outras regiões. E, arriscar-me ia a dizer, com a mulher das outras regiões! Mas, se é assim, como se chegou aí? Digamos que a suposta subserviência da mulher ribatejana surge como contraponto à utilização exacerbada do “mito do campino” e decorre das supostas virilidades e destemores do “homem do Ribatejo” consubstanciado este, precisamente, na figura do campino. E se o campino foi elevado a arquétipo ribatejano no contexto dos arquétipos regionais que o Estado Novo promoveu como expressão sublimada das virtudes da raça (e, no seu caso, como símbolo do cavaleiro português de antanho que garantiu a independência nacional nos momentos difíceis de afirmação nacionalista), ao mesmo foram-lhe imputadas diversas e elevadas qualidades e virtudes que, gradualmente, se foram mitificando. E se, como diz o povo, “só pode haver um galo numa capoeira”, o estatuto da mulher irá sofrer por arrastamento inverso. Virá, então, a ser encarada como alguém particularmente passivo e obediente. Situação, que convenhamos, não correspondia, de todo, à realidade existente. Como poderíamos então, em termos de estatuto social, caracterizar a mulher do Ribatejo? Esclareça-se que falamos, essencialmente, das “mulheres do campo” que, durante séculos, marcaram, social e laboralmente, toda a região; nomeadamente o Vale do Tejo a que, em tempos passados, se chamava Borda d´Água. Trabalhadoras jornaleiras, como o homem. Que, como este, tinham a sua praça todas as semanas, onde iam vender a sua força de trabalho. Aí, discutiam preços e condições com capatazes e proprietários. Daí, saíam para trabalhar, afastadas dos maridos, às vezes por dezenas de quilómetros. Labutando, toda a semana, lado a lado com outras mulheres (ou, até, com homens) de outras localidades. Pessoas que, recorrentemente, tinham de reafirmar (alto e bom som) a sua fama de boas trabalhadoras; pois disso dependiam trabalho e salário. Algumas, ainda, eram capatazas, habituadas a comandar grupos de trabalhadoras, servindo de porta-voz perante o feitor ou o proprietário, reivindicando remunerações ou condições de trabalho. Pessoas de opiniões firmes e decididas, extrovertidas e assertivas; expressando e exigindo maior autonomia social. Eram as mulheres do campo, camponesas morenas de corpo robusto e pêlo na venta, de sonoras gargalhadas e língua afiada, temperadas da geada e do calor da lezíria. E até onde vai, afinal, essa autonomia? Não existe, aqui, uma inversão social, esclareça-se. O homem continua a ser o chefe de família e a exprimir, de forma algumas vezes pública e violenta, esse estatuto. Mas a relação com a mulher e os filhos sofre de inegáveis caracteres subversivos, expressos familiar e comunitariamente. Digamos que a imposição dessa liderança é, neste caso, aceite menos pacificamente. O come e cala de tantas outras zonas do país é aqui, diversas vezes, substituído pelo, mais problemático, come, …e não cala! E de que maneira isso se refletia no dia-a-dia destas pessoas? Ao contrário do que emana da literatura regionalista, elevadora do homem ao tal papel de arquétipo regional (feito de virtudes várias e ausência de defeitos), pode dizer-se que a mulher ocupava, no Ribatejo, uma posição de género significativamente menos subordinada que noutras zonas do território nacional! O seu papel é mais marcante, tanto social, como profissionalmente! Proletária e jornaleira, a mesma emerge, aqui, das brumas de uma história local e regional (em grande parte por fazer), como disposta a liderar causas sociais e comunitárias diversas. Por exemplo, enquanto rapariga, na reivindicação do direito a escolher o conjugue ou, como mulher, na relação com o padre e a Igreja. Nestas situações e noutras, a mulher reivindica condições de ação e opinião muito pouco comuns na tradicionalidade feminina portuguesa. Nas atividades lúdicas, como as danças e os cantares, o seu papel surge significativamente valorizado. Tanto nas desgarradas (competições de improviso poético extremamente populares), como até em certas danças mais competitivas como o bailarico ou o fandango, parte considerável das rivalidades locais, explícitas ou implícitas, eram (ao contrário do que se pensou durante décadas), expressas numa perspectiva homem/mulher! Confirma-se, então, que a mulher também dançava o fandango? Naturalmente. De facto, não só parecem ter sido dançarinas espanholas que, no século XVIII, alimentaram especialmente a popularidade desta dança nos teatros lisboetas como, inclusive, disseminado já um pouco por todo o país, as descrições efetuadas por autores portugueses e estrangeiros, durante a segunda metade de setecentos, apresentam-no, quase sempre, como dançado entre homem e mulher, em pé de igualdade. Mais recentemente (de fins do século XIX até aos nossos dias) e mesmo sem a realização de um qualquer estudo global, tanto os estudos monográficos locais como as pesquisas minimamente sustentáveis (a propósito ou não) desenvolvidas por diversos grupos do Ribatejo constituem, disso, prova cabal. Como se compreende, então, que muitas representações folclóricas só recentemente, tenham aceite a participação feminina? É que, dentro do contexto que falámos, a identificação mítica do fandango com o homem do Ribatejo, dotado este dos tais caracteres psíquicos excecionais de força, vigor, destemor e virilidade, tornava naturalmente interdita, à mulher, a partilha de valências de caráter que lhe eram atribuídas. A sublimação mítica idealizou, aliás, cenários pictóricos em que o campino, dançando o fandango, seduz e conquista a mulher; completamente rendida aos encantos do bailador. Na verdade, esta interpretação; pelo carácter restritivo e determinista das complexidades da natureza humana, pelo papel estritamente passivo (e de alguma forma servil) da mulher e pela redução de um sentimento à mera avaliação de um desempenho artístico, constitui, em rigor, um autêntico disparate! Não obstante, persistiu até hoje. E foi criando, contra todas as evidências, um insensato senso-comum. E porque é que nunca se percebeu isto? Essa é, afinal, a grande questão: - Primeiro porque durante décadas ninguém estudou o Ribatejo. Nem sequer o próprio campino foi objeto de estudo. Pelo contrário, era apresentado, apenas, como um símbolo mítico regionalista: alguém que tinha nascido já adulto e montado: cavalgando, garbosamente, pela vastidão da lezíria. Dito de outra maneira, o Ribatejo era o campino e, este, o “Homem do Ribatejo”. O fandango era sua dança. Os touros, o seu desígnio. - E, convenhamos, quando nas décadas de oitenta/noventa isso foi sendo, em parte, ultrapassado, já tais questões de género não eram tão evidentes, O modelo laboral tradicional tinha-se já, em grande parte, transformado. - Depois, ainda, porque os ranchos folclóricos, na sua grande parte, não possuem nem as capacidades técnicas nem sequer interesse especial no estudo das condições de género. - E, finalmente, porque os mitos exercem uma ação desertificadora em seu redor. A mitificação positiva do homem arrastou, afinal, uma gradual mitificação negativa da mulher. E os mitos, após, implantados, são extremamente difíceis de extirpar. É muito grave se tal equívoco persistir no tempo? Bom, para já, é uma cedência ao erro e um atropelo à verdade. Naturalmente injusto para os registos memoriais da mulher ribatejana; cuja vida constituía nesses tempos, isso sim, um paradigma épico de esforço e superação. E, principalmente, não contribui em nada (muito pelo contrário) para melhor perceber a realidade social e cultural de género, no nosso país e nossa região. Afinal, só amamos aquilo que conhecemos. E só conhecemos aquilo a que damos suficiente importância, para o olhar com olhos de ver. Pode-se dizer-se que, tradicionalmente, o papel social da mulher do Ribatejo tem sido objeto de vários equívocos? - O equívoco, afinal, é só um: o de que os carateres de personalidade próprios da mulher ribatejana, que a tradição consagra, eram particularmente humildes e subservientes. Daí decorre, depois, todo um conjunto de erróneas implicações sociais e até culturais. Na verdade, não só tal configuração psicossocial não corresponde à realidade, como a mesma se nos revela aqui, pelo contrário, uma personagem bem mais autónoma e afirmativa; se comparada com a mulher de outras regiões. E, arriscar-me ia a dizer, com a mulher das outras regiões! Mas, se é assim, como se chegou aí? Digamos que a suposta subserviência da mulher ribatejana surge como contraponto à utilização exacerbada do “mito do campino” e decorre das supostas virilidades e destemores do “homem do Ribatejo” consubstanciado este, precisamente, na figura do campino. E se o campino foi elevado a arquétipo ribatejano no contexto dos arquétipos regionais que o Estado Novo promoveu como expressão sublimada das virtudes da raça (e, no seu caso, como símbolo do cavaleiro português de antanho que garantiu a independência nacional nos momentos difíceis de afirmação nacionalista), ao mesmo foram-lhe imputadas diversas e elevadas qualidades e virtudes que, gradualmente, se foram mitificando. E se, como diz o povo, “só pode haver um galo numa capoeira”, o estatuto da mulher irá sofrer por arrastamento inverso. Virá, então, a ser encarada como alguém particularmente passivo e obediente. Situação, que convenhamos, não correspondia, de todo, à realidade existente. Como poderíamos então, em termos de estatuto social, caracterizar a mulher do Ribatejo? Esclareça-se que falamos, essencialmente, das “mulheres do campo” que, durante séculos, marcaram, social e laboralmente, toda a região; nomeadamente o Vale do Tejo a que, em tempos passados, se chamava Borda d´Água. Trabalhadoras jornaleiras, como o homem. Que, como este, tinham a sua praça todas as semanas, onde iam vender a sua força de trabalho. Aí, discutiam preços e condições com capatazes e proprietários. Daí, saíam para trabalhar, afastadas dos maridos, às vezes por dezenas de quilómetros. Labutando, toda a semana, lado a lado com outras mulheres (ou, até, com homens) de outras localidades. Pessoas que, recorrentemente, tinham de reafirmar (alto e bom som) a sua fama de boas trabalhadoras; pois disso dependiam trabalho e salário. Algumas, ainda, eram capatazas, habituadas a comandar grupos de trabalhadoras, servindo de porta-voz perante o feitor ou o proprietário, reivindicando remunerações ou condições de trabalho. Pessoas de opiniões firmes e decididas, extrovertidas e assertivas; expressando e exigindo maior autonomia social. Eram as mulheres do campo, camponesas morenas de corpo robusto e pêlo na venta, de sonoras gargalhadas e língua afiada, temperadas da geada e do calor da lezíria. E até onde vai, afinal, essa autonomia? Não existe, aqui, uma inversão social, esclareça-se. O homem continua a ser o chefe de família e a exprimir, de forma algumas vezes pública e violenta, esse estatuto. Mas a relação com a mulher e os filhos sofre de inegáveis caracteres subversivos, expressos familiar e comunitariamente. Digamos que a imposição dessa liderança é, neste caso, aceite menos pacificamente. O come e cala de tantas outras zonas do país é aqui, diversas vezes, substituído pelo, mais problemático, come, …e não cala! E de que maneira isso se refletia no dia-a-dia destas pessoas? Ao contrário do que emana da literatura regionalista, elevadora do homem ao tal papel de arquétipo regional (feito de virtudes várias e ausência de defeitos), pode dizer-se que a mulher ocupava, no Ribatejo, uma posição de género significativamente menos subordinada que noutras zonas do território nacional! O seu papel é mais marcante, tanto social, como profissionalmente! Proletária e jornaleira, a mesma emerge, aqui, das brumas de uma história local e regional (em grande parte por fazer), como disposta a liderar causas sociais e comunitárias diversas. Por exemplo, enquanto rapariga, na reivindicação do direito a escolher o conjugue ou, como mulher, na relação com o padre e a Igreja. Nestas situações e noutras, a mulher reivindica condições de ação e opinião muito pouco comuns na tradicionalidade feminina portuguesa. Nas atividades lúdicas, como as danças e os cantares, o seu papel surge significativamente valorizado. Tanto nas desgarradas (competições de improviso poético extremamente populares), como até em certas danças mais competitivas como o bailarico ou o fandango, parte considerável das rivalidades locais, explícitas ou implícitas, eram (ao contrário do que se pensou durante décadas), expressas numa perspectiva homem/mulher! Confirma-se, então, que a mulher também dançava o fandango? Naturalmente. De facto, não só parecem ter sido dançarinas espanholas que, no século XVIII, alimentaram especialmente a popularidade desta dança nos teatros lisboetas como, inclusive, disseminado já um pouco por todo o país, as descrições efetuadas por autores portugueses e estrangeiros, durante a segunda metade de setecentos, apresentam-no, quase sempre, como dançado entre homem e mulher, em pé de igualdade. Mais recentemente (de fins do século XIX até aos nossos dias) e mesmo sem a realização de um qualquer estudo global, tanto os estudos monográficos locais como as pesquisas minimamente sustentáveis (a propósito ou não) desenvolvidas por diversos grupos do Ribatejo constituem, disso, prova cabal. Como se compreende, então, que muitas representações folclóricas só recentemente, tenham aceite a participação feminina? É que, dentro do contexto que falámos, a identificação mítica do fandango com o homem do Ribatejo, dotado este dos tais caracteres psíquicos excecionais de força, vigor, destemor e virilidade, tornava naturalmente interdita, à mulher, a partilha de valências de caráter que lhe eram atribuídas. A sublimação mítica idealizou, aliás, cenários pictóricos em que o campino, dançando o fandango, seduz e conquista a mulher; completamente rendida aos encantos do bailador. Na verdade, esta interpretação; pelo carácter restritivo e determinista das complexidades da natureza humana, pelo papel estritamente passivo (e de alguma forma servil) da mulher e pela redução de um sentimento à mera avaliação de um desempenho artístico, constitui, em rigor, um autêntico disparate! Não obstante, persistiu até hoje. E foi criando, contra todas as evidências, um insensato senso-comum. E porque é que nunca se percebeu isto? Essa é, afinal, a grande questão: - Primeiro porque durante décadas ninguém estudou o Ribatejo. Nem sequer o próprio campino foi objeto de estudo. Pelo contrário, era apresentado, apenas, como um símbolo mítico regionalista: alguém que tinha nascido já adulto e montado: cavalgando, garbosamente, pela vastidão da lezíria. Dito de outra maneira, o Ribatejo era o campino e, este, o “Homem do Ribatejo”. O fandango era sua dança. Os touros, o seu desígnio. - E, convenhamos, quando nas décadas de oitenta/noventa isso foi sendo, em parte, ultrapassado, já tais questões de género não eram tão evidentes, O modelo laboral tradicional tinha-se já, em grande parte, transformado. - Depois, ainda, porque os ranchos folclóricos, na sua grande parte, não possuem nem as capacidades técnicas nem sequer interesse especial no estudo das condições de género. - E, finalmente, porque os mitos exercem uma ação desertificadora em seu redor. A mitificação positiva do homem arrastou, afinal, uma gradual mitificação negativa da mulher. E os mitos, após, implantados, são extremamente difíceis de extirpar. É muito grave se tal equívoco persistir no tempo? Bom, para já, é uma cedência ao erro e um atropelo à verdade. Naturalmente injusto para os registos memoriais da mulher ribatejana; cuja vida constituía nesses tempos, isso sim, um paradigma épico de esforço e superação. E, principalmente, não contribui em nada (muito pelo contrário) para melhor perceber a realidade social e cultural de género, no nosso país e nossa região. Afinal, só amamos aquilo que conhecemos. E só conhecemos aquilo a que damos suficiente importância, para o olhar com olhos de ver.

A interculturalidade e a Escola

Vivemos numa sociedade que tende para a globalização, não só económica e comunicacional mas, ainda, de valores e de princípios, que tendem, cada vez mais, para universais e humanistas. Mas, tender não é necessariamente chegar! Muito longe disso! Afinal, diferenças étnicas (consubstanciadoras de discriminações várias) subsistem, naturalmente; perenes em termos físicos e de mudança lenta em termos culturais. E assim irão continuar! È, portanto imperioso, aprendermos a viver com grupos e indivíduos portadores de valores e costumes manifestamente diferentes dos nossos. Na Sociedade e na Escola! E o primeiro aspeto que devemos ter em conta, é que se trata de uma problemática complexa; De complexas causas, de complexas motivações atuais e, naturalmente, de complexas, abrangentes e delicadas soluções. Comecemos por nos debruçar sobre as estruturas subjacentes às atitudes de intolerância, tanto na sua componente cognitiva (como se sabe, em grande parte estereotipada), até à social (não menos importante) passando, igualmente, por uma vertente emocional omnipresente e, frequentemente, culpabilizadora. Como se sabe, os estereótipos pressupõem uma simplificação da realidade social, simbolizando-a e tornando-a, funcionalmente, mais percetível e identificável. Por exemplo, em termos de identificação dos grupos humanos, a estereotipação tende a entendê-los como de um indivíduo só se tratasse, sem reconhecer as, naturais diferenças (ou, mais rigorosamente as infinitas diferenças), das personalidades que os constituem. O caso mais extremo desta categorização, pode ser exemplificado pelo pensamento dicotómico; isento de matizes e situações intermédias. São brancos ou pretos, bons ou maus, amigos ou inimigos, “nós” ou os “outros”. Nós e os “Outros” Assim, um eventual estigma envolve todos os indivíduos do grupo considerado, não tendo em conta diferenças de idade, sexo, estatuto social, formação cultural ou quaisquer outras. Correspondem a uma visão da realidade muitas vezes irracional (emotiva, se quisermos), mas com que deparamos frequentemente; e que, de alguma forma, envolve o nosso quotidiano. Esta categorização bipartida leva-nos, depois, a identificar os outros por uma perceção simplista e arquétipa de um qualquer aspeto físico (principalmente) ou cultural, ignorando-se porém, de forma muitas vezes ostensiva, as restantes particularidades. Tal atitude, discriminatória já, potencia-se depois, especialmente quando se funde com outros aspetos de carácter (por exemplo, quando o indivíduo pertence a um grupo com menor poder ou prestígio) ou emocionais: por exemplo, quando o mesmo indivíduo ou grupo são vistos como uma ameaça. Ensaiemos, então, um esboço de síntese caracterológica das razões psicossociais que podem levar a incrementar estas visões discriminatórias, aumentado o risco da intolerância face aos outros. - Centrar a nossa atenção nas diferenças entre nós e os outros, tende a exagerar tais diferenças em detrimento das semelhanças. - A eclosão de dois fatores considerados potencialmente ou efetivamente negativos (por exemplo a chegada de emigrantes e o incremento da droga, da criminalidade ou até do desemprego) tende a relacionar os mesmos num contexto absoluto e linear de causa e efeito. - Os próprios estereótipos guiam a nossa interpretação da realidade e criam memórias seletivas dos acontecimentos, o que dificulta a sua superação. Digamos que, os dados positivos são considerados como exceção, os negativos como prova! - Finalmente, mesmo que venhamos a considerar positivamente um qualquer indivíduo doutro grupo/cultura, o estereótipo impede que generalizemos essa apreciação. Será visto, mais uma vez, como uma exceção. Uma pessoa por quem temos estima, não porque, mas,... apesar de! Na verdade, grande parte da nossa intolerância resulta de situações essencialmente emocionais que, embora possamos dizer não resistiriam a uma simples análise metodológica, dominam e persistem, numa irracionalidade muitas vezes cega mas, nem por isso, menos eficaz! Por exemplo, os “bodes expiatórios”, decorrentes da culpabilização dos “Outros” face a situações vigentes de tensão e frustração ou, até, de instabilidade social ou económica. A história recente do Povo Judeu, numa Europa supostamente humanista, é bem paradigma, lamentável, de tal pressuposto. A isto podemos juntar a necessidade de afirmação do “nosso grupo” face ao “outro”, ao estranho, reforçando a nossa coesão, mas igualmente o nosso estatuto interno e, obviamente a efetiva integração no mesmo. E aqui, podemos dizer que existem dois vetores que tendem a potenciar esta atitude: por um lado o reforço da nossa identidade construída assim por oposição aos outros, por outro, a criação do inimigo externo tornado, assim, o tal ”bode expiatório”; responsável por todos os males e mais alguns. Situação que não deixa sequer, muitas vezes, emergir a natural empatia e solidariedade para com o marginalizado e discriminado. E, o mais paradoxal, é que nos baseamos numa perceção pretensamente ética, acreditando (querendo acreditar) que o outro é o único (ou principal) culpado da sua situação. São, portanto, atitudes deformadas da perceção da realidade que nos levam, muitas vezes, a encarar os outros como inferiores ou piores. Deformações que resultam de manifestas expressões de interesse e solidariedade grupal, do desconhecimento, do horror à diferença, quantas vezes... do medo! Atitudes preconceituosas, que servem, frequentemente, para legitimar diferenças grupais de estatuto e poder. Foi, aliás, considerando os escravos e os “selvagens” como “naturalmente inferiores”, que se justificaram durante séculos, genocídios e expropriações de bens, de territórios e, até, da própria dignidade humana. A escola e a diferença De tudo isto se deduz que não basta abrir as nossas escolas a outras culturas étnicas. Nem incluir elementos culturais que lhe são próprios, no currículo escolar. Nem sequer (e dando já de barato o complexo de dificuldades associadas a esta estratégia) abrir a Escola à Sociedade em que esta está inserida. É preciso tudo isso! Mas, convenhamos, bem mais do que isso! È preciso que o docente seja mais que um papagueador do programa. Mais que um simples catalisador, mesmo que fluente, da transmissão do conteúdo programático aos discentes. Que não se reduza a reconhecer a presença de outras realidades culturais na sala de aula. Que não as encare como expressões pitorescas de singularidades étnicas. Que não as veja como variantes do modelo padrão existente entre nós. Que não trate os seus portadores como uma espécie de atrações circenses, nem expresse, por eles, um paternalismo quantas vezes humilhante! Mesmo que bem-intencionado! É preciso que esteja sensibilizado para a naturalidade da diferença, que o etnocentrismo tantas vezes subverte, implícita ou explicitamente. Que veja na diferença não um obstáculo, mas um estímulo! Não uma contradição, mas um enriquecimento dos valores patrimoniais em presença! Que perceba que as diferenças entre as culturas (que os diferentes grupos humanos veiculam), são profundamente influenciadas pelo contexto social e pela transitoriedade histórica. Por opções de progresso e por diferenças de oportunidade. Que, por exemplo, já na África existiam grandes civilizações, capazes de erigir construções ciclópicas (consideradas, hoje, maravilhas do mundo), ainda os europeus corriam atrás de bisontes com machados de pedra! Estará então dotado de condições psicossociais para vir a desenvolver mecanismos pedagógicos e vivenciais que permitam aos alunos tolerar melhor a incerteza (que é nossa companheira inseparável no mundo de hoje), de forma a fazer consolidar identidades em formação sem necessidade de o fazer contra quem quer que seja. Promovendo e estimulando contactos intergrupais e interpessoais. De forma a descobrir que somos, ao mesmo tempo, iguais e diferentes: homens e mulheres, europeus e africanos, “gadjés” e ciganos, cristãos e muçulmanos, indivíduos com ou sem “necessidades especiais”. Vivendo a tolerância como valor; nunca como obrigação. Mesmo que revestida do prestígio humanista contemporâneo. Estará, então, em condições de ajudar a fazer de uma Escola com todos, uma Escola para todos. Ou, se quisermos, uma Escola de todos! Assim lhe sejam fornecidas condições instrumentais, temporais e, principalmente, psicossociais. De que, hoje, tanto carece.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Taumatúrgico e casamenteiro : Santo António e as conceções solsticiais

De acordo com a conceção mítica tradicional, o Mundo, dotado que é de uma natureza entrópica inexorável, corrompe-se periodicamente e morre. Carecendo, portanto, de ser recriado. Dando assim corpo, ao que chamamos o tempo cíclico (anterior ao tempo histórico que hoje vivemos) que todos os anos se acredita esgotar e diluir no limbo primevo. Que todos os anos nasce de novo; regenerado e recriado. Por isso, os fins dos anos foram, durante milénios, vistos como “fins dos mundos” e estes, por seu turno, encarados como espaços temporais de morte e recriação. Para isso, os deuses criadores se tornarão, com o tempo, elementos sacrificiais e, o seu sacrifício, condição necessária de recriação e salvação. Por isso, tradições populares exóticas e subversivas (algumas, ainda existentes), celebravam os “fins dos anos” enquanto representações simbólicas dos “anos velhos” que passavam. Envergando máscaras que representavam o velho e decadente e/ou sendo portadoras de variados símbolos de regeneração. Ou criando lutas rituais entre personagens solsticiais simbolizando “o velho” e “o novo”, o corrompido e o rejuvenescido, o inverno e o verão, o pecaminoso e o puro. Na verdade, muitas das nossas tradições assentam nesta raiz ancestral, frequentemente pré-cristã, que celebra ciclicamente os fins dos diferentes períodos anuais, gerando festas diversas, caraterizadas pela rotura e pelo excesso. Em que predominam os tais símbolos de transição e transformação: máscaras, transvestismo, inversões sociais, subversões, fertilidades regenerações. Que “os tempos entre os tempos” , funcionalmente, induzem. Por isso, os momentos solsticiais são, ainda hoje, ocasiões em que se celebra o ciclo de vida. A nova vida que irrompe da morte; no solstício de inverno. O apogeu da vida, no solstício de verão: clímax, que é, da dominação solar e da fertilidade imanente da natureza. É assim, este último, tempo da celebração festiva da vitalidade que a primavera induz: de uma natureza, afinal, grávida de vida. Por isso os santos, aí comemorados, se impregnam do poder fecundante e criador, na altura celebrado. E se no Solstício de Inverno será colocada a celebração do nascimento de Cristo (enquanto cristianização do natal de Mitra), São João que, segundo o calendário solsticial nasce seis meses antes (condição condizente com o modelo arcano solsticial), vai ser, dir-se-á naturalmente, o percursor, o anunciador: aquele que vem “preparar o caminho do Senhor”. Aliás, na construção do mito cristão, a figura de São João Baptista, embebe-se de um simbolismo solar indubitável. Nasce segundo o ciclo solsticial, atinge a apoteose do brilho no auge da pregação, assinala com o batismo o seu sucessor a quem passa o testemunho do poder e se assume como servidor (o tal de “quem nem é merecedor de desatar as correias das sandálias”), correspondendo, portanto, à entronização de um novo rei. Finalmente, findo o seu tempo, degenera e morre, para permitir a anunciada ascensão da nova divindade, do “novo sol”; Jesus Cristo! Dando assim origem, à prodigiosa “noite de são João”. Em que a natureza é sagrada e se reveste de prodigiosas qualidades. Sejam as águas, as plantas ou árvores, o orvalho ou os rios, o fogo ou o fumo, as flores ou as searas. Em que, em tempos idos, decorriam flamejantes cortejos luminosos, se dançava e cantava nos bosques em redor de árvores ou, com o mesmo propósito, se transportavam, as mesmas, para os largos das aldeias. Em que se realizavam orgias sagradas. Em que os banhos eram “santos”. O orvalho, “benfazejo”. O fogo, purificante. E se defumavam casas, gados e pessoas. Em que se queimava a alcachofra e a “erva pinheira”. Acto de adivinhação e propiciação que, este tempo, permitia acontecer. Em que as pessoas se mascaravam e trasvestiam, se invertiam situações sociais, económicas e de género. Se roubavam flores, carros de bois e cancelas. Se desencadeavam pantominas subversivas como, a ainda hoje sobrevivente, “bugiada” do Sobrado, no concelho de Valongo. Daí as particularidades que São João adquire e o tornam santo casamenteiro. Das quais Santo António e São Pedro irão, igualmente, beber. Mas, este último, relacionado com uma iconografia sénior, apresenta traços iconológicos que, em termos populares, o afastam, da matriz sentimental. São Pedro por ser velhinho Deve ter muito juízo Por isso Deus lhe entregou A chave do Paraíso! Afinal, os santos casamenteiros são sempre, iconograficamente, jovens: susceptíveis de uma mais fácil identificação com a função sentimental que desempenham. Serão, assim, São João e Santo António que, essencialmente, irão partilhar da licenciosidade namoradeira que é própria de um santo casamenteiro que se preza. Daí as similaridades na poesia popular. Percebe-se que os dois santos, se revelam como expressões semelhantes de uma mesma hierofania. Ambos são casamenteiros, brejeiros e mulherengos, patronos dos gados domésticos e, estão ligados, direta ou indiretamente, à problemática, sempre latente (e neste caso particularmente abrangente), das curas milagrosas. Para lá da invocação geral que muitos “ensalmos” populares comprovam um pouco por todo o país, os dois possuem áreas de intervenção taumatúrgicas, especialmente alargadas e diversificadas. Pode assim dizer-se, que a popularidade de António, o “santo menino”, resulta tanto da referida conexão astral como, igualmente, de uma multifacetada taumaturgia que, numa hagiologia especialmente rica e a sua natureza de santo português, cultualmente promovido pela capital, vai consolidando. Pode, aliás, dizer-se, que todos os santos casamenteiros são populares. Apresentando-os como mulherengos e bons garfos, como qualquer homem da nossa sociedade tradicional, os cancioneiros locais refletem na sua caracterização, laivos de companheirismo e, algumas vezes até, irónica e insólita camaradagem! Onde mora Santo António Que o quero para vizinho Mora para lá da ponte Para cá do ribeirinho. Camaradagem que facilmente resvala para atitudes de relação face-a-face que a “imagem” permite, assim ocasionando (nalguns casos) confrontações várias, algumas revelando, até, ostensivas manifestações de desagrado. Afinal, o contrato oral com o santo (mesmo que intimista) à semelhança daqueles que eram comuns nos negócios desenvolvidos nas sociedades tradicionais, acarretam uma obrigação contratual recíproca. Assumida pelo crente no ato de prometer e pelo santo, implicitamente dir-se-á, pela sua natureza de protetor daquela área e, afinal, por não ter rejeitado a mesma. No entanto, se o santo não concede a graça ou a mesma demora, a insatisfação individual ou coletiva poder-se-á tornar particularmente visível. E se, supostamente concedida, evoluções posteriores vêm a revelar recaídas diversas, então a irritação pode eclodir e levar a ações de desagravo ou retaliação desenvolvidas, ostensivamente, sobre as suas “imagens”. E, nesse aspeto, Santo António pela sua familiaridade, muitas vezes comunitária, adquire papel saliente. Vieira Natividade, por exemplo, relata, em Alcobaça, um insólito episódio em que Santo António é até, literalmente, esbofeteado por uma rapariga claramente frustrada no seu desígnio amoroso. Outros, bem mais comuns, emergem de um ideário particularmente pitoresco em que como castigo ou mera coação se costumam (atente-se) mergulhar as imagens dos santos em água. Leite de Vasconcelos, por exemplo, relata uma situação observada, no Porto, em que uma família tinha colocado uma imagem de Santo António num poço com a cabeça para baixo, por não ter atendido uma prece. Também em Alcobaça se fazia o mesmo, por razões semelhantes, com a “imagem”, atrás referida, do mesmo Santo António. Ou, ainda, em Serpa em que as raparigas, que tardavam em casar, costumavam suspender o santo por uma corda (igualmente de cabeça para baixo) mergulhando-o num poço, até que se efetuasse o casamento. Afinal, as divindades, sejam elas de que natureza forem (empíricas ou refletivas) mais não são, poder-se-á dizer, que arquétipos de uma sociedade transfigurada e entendida simbolicamente. Mas não só os santos ditos populares (de impregnação solsticial) possuem atributos sentimentais e fecundantes. A exemplo de São Valentim, cuja hagiologia pouco sustentável o localiza no século III D.C, e o apresenta como um sacerdote cristão que, “por acreditar muito no Amor e valorizar o casamento e a família”, teria sido morto pelo imperador Cláudio II, que teria proibido os casamentos. Se atentarmos a que este é o período em que os teólogos cristãos desaconselham, eles sim, o casamento e a as relações carnais, desvalorizam a mulher e chegam até a defender a santificação das virgens e a proibição dos casamentos a todos os cristãos (de que o celibato atual é resultado de um compromisso possível) podemos aferir da sustentalidade de tal ideário. Aliás, São Valentim, apenas a partir de 1840, na Inglaterra vitoriana (quando as formas de sedução adquirem contornos de sofisticação mundana) adquiriu importância que, hoje, a sociedade de consumo, tornou numa mais oportunidade de consumo. Diferente é São Gonçalo; afinal um reconhecido especialista na matéria. Santo que incorpora intensos atributos operativos de antigas e ignotas divindades fecundantes, delas subsiste o conjunto escultório denominado “o diabo e a diaba” (representando antigas potências sexuais) aos quais os devotos de São Gonçalo, ancestralmente, solicitavam tais graças. Afinal, destas entidades, herdou o santo a capacidade de “casar velhas, feias e prostitutas”: situações particularmente difíceis que requerem intensas valências fecundantes. Delas, parece ter, ainda, herdado os famosos bolos fálicos que, hoje, inícios do século XXI, continuam a ser vendidos e até expostos face à liberalidade atual de tempos e modos. Mas o irreverente lascivo é aqui, ainda, mais diversificado. Rapariga encalhada que vá às festas de São Gonçalo e deseje casar, deve puxar, três vezes, o cinturão da “imagem” do santo. Caso não o faça, corre o risco de nunca casar! Indo, assim, engrossar o clube das tias crónicas e solteironas. Apesar de beato (cujo culto, afinal, só foi reconhecido na Diocese de Braga e entre os dominicanos) São Gonçalo é particularmente popular no Minho mas, igualmente, em cidades onde existiam mosteiros ou igrejas dominicanas. E embora não tendo, nunca, uma intensa e homogénea penetração nacional, o mesmo irradiou, depois, para outras localidades principalmente do norte do país. Chegou, ainda ao Brasil onde adquiriu novas funcionalidades e ainda hoje permanece como um dos mais importantes cultos populares em grande parte dos estados brasileiros. É aí chamado de “santo de viola” e possuidor de uma iconografia que evoluiu, frequentemente, para contornos literalmente profanos. Preservando-se aí, o assim chamado, “baile de São Gonçalo” ou “dança de São Gonçalo”, onde os devotos, em espaços particulares e frente a um improvisado “altar do santo” vão, de forma ritual (prescrita e orientada) cantar e “dançar para o santo” pagando assim, hoje como ontem, as respetivas promessas. Poder-se-á dizer, então, que, na Europa, os “santos casamenteiros” resultam de duas e diferenciadas causalidades. Ou participam das valências fertilizantes de uma temporalidade solsticial estival (como São João ou Santo António e, apesar de tudo, São Pedro) ou resultam da substituição sincrética de um culto local fertilizante/fecundante; como São Gonçalo. Ou ainda, se quisermos, de uma interpretação hagiológica muito peculiar; tornada referencial sedutor de classes superiores; como São Valentim. Em termos históricos (ou pelo menos historicizados) Santo António de Lisboa (onde terá nascido a 15 de Agosto de 1191/5), também conhecido como Santo António de Pádua, (onde morreu a 13 de junho de 1231), de sobrenome incerto mas batizado como Fernando, foi um Doutor da Igreja que viveu na viragem dos séculos XII e XIII. Primeiramente foi frade agostinho no Convento de São Vicente de Fora, em Lisboa. Tornou-se franciscano em 1220 e, no ano seguinte, fez parte do Capítulo Geral da Ordem em Assis, a convite do próprio Francisco de Assis: que o convidou, também, a pregar contra os albigenses. Foi transferido depois para Bolonha e de seguida para Pádua, onde faleceu: para uns aos trinta e seis, para outros aos quarenta anos. A sua fama de santidade levou-o a ser beatificado pela Igreja Católica pouco depois de morrer, distinguindo-se como teólogo, místico, asceta e sobretudo como notável orador e grande taumaturgo . Situação que a lenda releva no conhecido “sermão de Santo António aos peixes”. António é, de facto, tido como um dos intelectuais mais notáveis de Portugal do período pré-universitário. Possuía uma sólida cultura, documentada pela coletânea de sermões escritos que deixou, onde fica evidente que estava familiarizado tanto com a literatura religiosa como com diversos aspetos das ciências profanas. Segundo a lenda, que a hagiologia perpetuou, nasceu e viveu em Lisboa e lá ajudou a concretização de muitos casamentos felizes e orientou muitos homens e mulheres para encontrarem o cônjuge que iriam amar até o fim da vida. Seus auxílios e intercessões aos namorados e noivos teriam, então, despertado uma grande devoção popular entre os portugueses. Devoção que os seus milagres, os seus escritos e a sua reconhecida intercessão sentimental, há séculos, alimentam. Protetor nas viagens, libertador de presos, achador das “coisas perdidas”, dissipador de trovoadas, Santo Antônio é especialmente conhecido como padroeiro dos casais e dos namorados, dos doentes e das mulheres grávidas e dos pobres. Tais abrangências milagrosas (principalmente as sedutoras), envolvem-no em peculiares quadras amorosas , donde participam oferendas de manjericos, fontes, “bilhas partidas” e seduções de moçoilas numa particularmente fértil hagiologia popular. Mais frequentes enquanto loas joaninas, surgem também, frequentemente, na poética popular relativa a Santo António. Santo António, n’esta fonte De águas claras e amigas Quantas vezes consertastes As bilhas às raparigas? No Brasil, entre muitas outras funções, Santo António, especializou-se em fazer as pazes entre os casais desavindos. Parafraseando uma ação ritual, também comum em Portugal (aqui, contudo, mais como conciliação que reconciliação), para isso, se usa um cravo e uma rosa. Os talos devem ser amarrados juntos com uma fita verde, na qual serão dados treze nós. Durante o procedimento, o devoto deve acreditar, naturalmente, que Santo António vai uni-los outra vez. Hoje as festas de Santo António em Lisboa (e também por razões miméticas noutras zonas do país), são especialmente conhecidas pelas, já tradicionais, “marchas populares”. Há pouco tempo surgiam, ainda, as fogueiras, acesas nos largos ou ruas dos bairros alfacinhas, bem como das aldeias e vilas deste país, enfeitados a preceito com luminárias e papéis, ramagens e flores, enquanto estralejavam as bombas e assobiavam as “bichas de rabiar”, entre gritos de alegria e interjeições de admiração de crianças e adultos . E o lúdico, mágico e purificador, emergia então, pujante, quando a chama da fogueira se utilizava para “queimar as alcachofras” ou quando, o fumo, era utilizado para “defumar” pessoas e animais . Saltar à fogueira constitui, na verdade, um ato mágico de fertilização; em que o calor e a luz, expressões operativas do poder solar, vão energizar potências fecundantes em futuras ligações sentimentais. Do fundo dos tempos chegavam-nos ainda costumes (que aliavam as virtudes exorcísticas da vegetação ao poder fecundante das fogueiras) de espetar tições nas leiras dos pomares e hortas, de forma a impregná-las de poder fecundante e potenciar assim, ainda mais, a magnanimidade da Terra-mãe. Pois, saúde e fecundidade (condições necessárias de fertilidade) constituíam, como vimos, a dicotomia presente na simbologia flamejante da fogueira solsticial. Herdeira dos antigos cortejos de fogo; hoje presente nas luminárias (já não flamejantes, mas eletrizantes) dos arcos florais e ornamentais. Fogueiras celebrando o apogeu do sol (no cimo dos montes ou no centro da aldeias): centros e “umbigos do mundo”, afinal! Centralidades que o “mastro”, “pinheiro” ou “carvalho de São João” ou o “mai pole” das calendas de Maio (de temporalidade céltica) tão claramente simbolizavam. Ou encarnavam, um pouco por toda a Europa, em personagens florais ou efigies antropomorfas (verdadeiros espíritos da vegetação) como os “maios-moços”, o “Jorge Verde” da Caríntia e da Rússia ou o “Jack The Green” das Ilhas Britânicas. Que, em Portugal, nos surgem já em Gil Vicente, mais precisamente no Auto da Festa: San Juan Verde, passó por aqui Quan garradiço, o vi venir Efigies antropomorfas que persistiram até recentemente nos bonecos queimados na fogueira ou nos pinheiros e “mastros” associados. Imolados pelo fogo num contexto mítico/ritual de morte/renascimento. Ou até nos “tronos de santo António”; criativas consagrações rituais de uma devoção popular . Espécie de relicário familiar trazido para um espaço público; de forma a expressar publicamente a respetiva devoção e afirmando a religiosidade comunitária individual e familiar. Que, como todas as iniciativas populares tradicionais (nomeadamente de natureza sagrada como o “pão por Deus” ou o “tostãozinho p´rá maia” ou das solicitações de dádivas nas “cantigas dos reis”, do natal ou do ano novo) também se vieram a traduzir no “tostãozinho p`ró Santo António”, sendo as crianças os sujeitos da ação como, com certeza, formaram cada vez mais os elementos motivadores e sustentadores da mesma. E finalmente pelos “arraiais” que, em Lisboa, assentavam e ainda assentam nas organizações de vizinhos que os pátios consubstanciam (hoje, naturalmente, turistificados), onde se come, canta e dança e se desenvolvem atitudes licenciosas e sentimentais. E, sempre, a presença da natureza! No caráter esconjuratório dos “alhos porros”, preservados até recentemente no Porto e hoje substituídos pelos simpáticos martelinhos. Nas quadras populares propiciatórias e nos manjericos (plantas aromáticas sensíveis e cheirosas, que têm de ser regadas para crescer e florescer; como o amor afinal) e que se encontram, neste tempo, especialmente verdejantes. Mas cujo cheiro só resulta do toque pessoal e íntimo e, deste modo, se não difunde, facilmente, pelos outros. E a relação popular como o santo é de tal maneira próxima que, antigamente em Lisboa, no seu dia, se entregavam formalmente a Santo António, oficiosas petições em que se lhe pedia toda a sorte de coisas, mesmo as mais ilícitas, e que {atente-se} eram escritas em papel selado, por “escrivães públicos, instalados nas vizinhanças das igrejas”. E se podemos dizer que “todos falamos com Deus e com os santos, mas que, o prodígio, que faz o milagre, está em Deus falar connosco”, a relação popular com Santo António, levava até, algumas vezes, por paradoxal que seja, a uma resposta escrita e endereçada, assinada, nem mais nem menos, que pelo punho do santo! Exemplo mais acabado de tentativa de apropriação institucional das qualidades taumatúrgicas de santos, por definição populares, será difícil encontrar.