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Espaço de comunicação que se espera interactivo, este é um instrumento que permite estar próximo de amigos,presentes e futuros, cujas contingências da vida tornam distantes mas nem por isso menos merecedores de estimas e afectos.


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segunda-feira, 6 de maio de 2013

Mitos e criações do mundo


 

Comecemos por constatar que na sociedade dita ocidental, o tempo é visto como evoluindo segundo conceções lineares e escatológicas, que tendem a levar à crença num fim do mundo único e definitivo e mais ou menos apocalíptico.
No entanto, esta maneira de entender o cosmos e a sua fluência temporal, sobrepõe-se a um substrato anterior e pré-cristão em que o mesmo é entendido como degenerando-se gradual e irremediavelmente, segundo ciclos que coincidem com os ritmos cósmicos dominantes.

Na verdade, ambas as perspectivas incluem a noção da inevitabilidade da deterioração cósmica. Diferem, contudo, na irreversibilidade do fenómeno.
Afinal, cíclicas ou lineares, sempre as conceções existenciais entrópicas foram entendidas como modelo da recriação periódica: de forma a obstar à dissolução definitiva no niilismo primevo. De um retorno à unidade primordial.

Niilismo primevo, origem e princípio de todas as coisas:

“No princípio Deus criou o céu e a terra. A terra era informe e vazia. As águas cobriam o abismo” (Bíblia).

“O espaço jazia imóvel e sobre o caos descansava a imensidade do mar, num silêncio absoluto. Não havia coisa em ordem, nem coisa que tivesse ser” (Popol Vuh).

A partir daí os mitos cosmogónicos relatam a Criação do Mundo. A cosmogonia primordial!
Mitos que participam duma natureza mais vasta: daquilo a que se chamam os mitos de origem. Tão diferentes quanto as culturas humanas.

Os primeiros, falam da criação do Mundo mas também dos Homens

E, quantas vezes, concomitantemente, dos governantes divinos (reis, imperadores, faraós), que remetem genealogicamente aos deuses. São personagens divinas ou semidivinas, necessárias à interação com os deuses celestes, ao equilíbrio social, à fertilidade agrícola e da natureza.
Por isso o messias hebraico tinha de radicar na “Casa de David”.
Por isso, os reis, governam “…pela graça de Deus…”

Os segundos (que incluem os primeiros, mas os sobrelevam) relatam igualmente o início não primevo, mas absoluto, de determinadas situações e realidades.
O instante em que o Deus respetivo ensinou aos Homens o cultivo do milho, entre os povos do Yucatan.
Em que o criador concedeu aos homens os inestimáveis bois; entre os Masai do Quénia.
Em que o Homem recebeu dos deuses o segredo da plantação do arroz, em Timor Lorosae.
Em que o homem foi obrigado a sofrer e a trabalhar; entre os judaico-cristãos.

Uns e outros, remetem para um novo mundo, geral ou particular, que se inicia pela primeira vez nesse instante prodigioso, mas se repete, de novo, cada vez que um ritual reconstitui, de novo, o mito.

Poder-se-á dizer, então, que para as conceções ideológicas arcaicas, mais que quaisquer outras, todo o mundo é, “composto de mudança”!
Mudança que exige, contudo, uma imersão cíclica no limbo primevo! Condição purificadora indispensável para um novo começo. Começo gerado, em sentido estrito, a partir do “nada” absoluto!
A anulação entrópica, cíclica e radical, gera assim (através de uma catástrofe como um dilúvio ou um fim flamejante como o de Sodoma) um novo mundo e uma nova existência, numa dimensão perpétua do devir.
Só o caos, afinal, é criador!

Deste emerge o mundo, na maior parte dos mitos de criação:
“E Deus criou a terra, fazendo-a emergir das águas”.
“E Deus separou a luz das trevas”.

Mas a perfeição do começo exige a destruição do velho. A transmutação exige a dissolução das formas existentes, entendidas estas, também, social e culturalmente.
E enquanto a transição se verifica, o tempo e o mundo encontram-se mergulhados na desordem, no indiferenciado. Corresponde, este, a um período em que a velha ordem já desapareceu e a nova ainda não a substituiu.

É um tempo prodigioso, mas perigoso. Em que dominam as trevas, a desorganização, as carnavalescas atitudes de subversão. Orgias populares e licenciosidades, saturnais e bacanais, inversões da ordem e desregramentos sociais eclodem como elementos dominantes.
Contudo, se tudo correr como habitual, a cada morte seguir-se-á uma nova vida. A cada ciclo, um novo ciclo.
Para isso, para garantir a eficácia de tal transformação, os Homens desenvolvem, há milénios, diversos rituais propiciatórios:
Quando o Sol se extingue ou, pelo contrário, quando manifesta o seu apogeu, acendem grandes fogueiras, saltam, dançam e entoam cânticos elegiáticos.
Quando o ano velho acaba, criam figuras (vivas ou efígies antropomorfas) que personificam o ano velho, o degenerado, o gasto, o pecaminoso.
Muitas delas eivadas de diretos ou indiretos símbolos de regeneração. Serpentes, salamandras, chifres, laranjas, bugalhos, chocalhos.

Mais ainda, podem expulsar ritualmente personagens ou animais que simbolizam o que é velho, decadente ou pecaminoso: bodes expiatórios da corrupção moral e não só!

Para a teologia cristã, contudo, o mundo tende para um fim mais ou menos absoluto, catastrófico e grandioso na sua apoteose apocalíptica.
Ao fim do mundo corresponderá, neste caso, o fim da vida na terra; seguindo-se uma outra existência eterna e beatífica, perpetuamente feliz, mas numa outra dimensão existencial.

É a linearidade histórica da teofania cristã: uma só criação, uma só vida, um só fim!

Mas o mito não é, nas culturas arcaicas, apenas uma explicação sagrada: logo verdadeira. Necessária à inteligibilidade do real!
Exerce, igualmente, uma função exemplar. Exprime, realça e codifica as crenças, salvaguarda os princípios morais e impõe-os, garantindo assim a eficácia das cerimónias e fornecendo regras práticas para uso do Homem.

Aliás, as obrigações e interdições rituais são, normalmente, nas sociedades humanas, de origem mítica, mesmo que esbatida.
Assim como Nossa Senhora só foi à missa quarenta dias depois de estar de regimento, também as mulheres “paridas” não frequentavam a Igreja antes de passado esse tempo, em toda a zona das faldas da Serra d’Aire.
As mulheres árabes pintam o cabelo de negro enquanto as raparigas o pintam de vermelho, porque Maomé assim procedeu com as filhas. Os homens, principalmente os mais piedosos, usam normalmente barba, apenas e só, porque o Profeta o usou. Deste modo Maomé, o homem perfeito, tornou-se modelo de ser e de fazer. Através dele procedeu-se ao estabelecimento do padrão ideal de conduta humana.
Do mesmo modo, o sábado judaico ou o domingo cristão constituem imitações do comportamento divino: assim como Deus trabalhou durante seis dias e descansou ao sétimo, assim devem os homens fazer.

Tal comparticipação não só torna o mundo familiar e inteligível mas ainda, e igualmente, transparente!

Em suma, os mitos revelam que o Mundo e o Homem têm uma origem sagrada, e revelam que aquilo que se pretende fazer já foi feito antes. Logo que tal é possível e que os resultados são previsíveis se se seguirem as regras prescritas.
Não há portanto que hesitar. Basta repetir atempada e rigorosamente o ritual respectivo e os resultados virão a desencadear-se da forma esperada. Inequivocamente, inevitavelmente!

Hoje como ontem, os cerimoniais continuam a reatualizar os mitos primevos.
Na liturgia cristã, a missa constitui clara reconstituição da última ceia; paradigma da refeição comunitária, solidária na sua teofagia ritual!
As “procissões dos passos” repetem hoje o percurso dramático da “paixão do Senhor”, reanimando e teatralizando o mito.
O batismo constitui repetição arquétipa do episódio iniciático verificado no Jordão e tendo como intérpretes Jesus e João Baptista.
O presépio proporciona a reconstituição do contexto espacial e da envolvência sagrada que permitem, por seu turno, a eclosão da hierofania natalícia.
Todos representam situações que tentam, de alguma maneira, recriar esses momentos primevos e absorver, como que por osmose, as singulares valências desse mesmo instante inicial.

Só existe, portanto, um meio para alcançar a salvação: repetir rigorosa e ritualmente o drama supremo da vida de Cristo.
É deste modo a liturgia recupera, ritual e sistematicamente, o tempo dos primórdios.
O mito, aqui de Cristo, é a própria fonte de vida; o sentido último da existência. Imita-se Cristo (como se imitam outras divindades), no seu nascimento, na sua vida, na sua morte, na ressurreição!

Na verdade, os corpos míticos são tantos, quantos os modelos civilizacionais humanos. Muitos relatam o início absoluto; a origem da tribo ou do clã, desencadeada a partir da ação de um antepassado, de um animal totem, dos deuses, dos imortais. Todos contam uma história. Um acontecimento que ocorreu num tempo primevo, não datável e fabuloso; o tempo do começo!

Tempo do maravilhoso que remete para um Paraíso mais ou menos primevo. Em que os animais falavam. Os deuses andavam pela terra. E o mundo era um jardim de deleite e ventura.
Paraíso que, para os escandinavos, é um lugar de lutas e heroicidades perpétuas.
Para os indígenas americanos, caçadores exímios, “o país das caçadas eternas”.
Para os hebreus e árabes (povos do deserto) um luxuriante jardim/oásis.

Resumindo, os mitos não relatam apenas a origem do mundo ou do Homem, dos animais ou das plantas, mas igualmente as circunstâncias em que o Homem se tornou naquilo que é hoje: moral, sexuado, organizado socialmente, obrigado a trabalhar ou obedecendo a determinadas regras.
Explicam, assim, realidades existentes!
São a maneira mais adequada de explicar o inexplicável.
Tornando-o parte de um todo plausível e compreensível.

As suas matrizes obedecem a simbologias senso-comum num cosmos holístico, acrónico e acientífico.
Os mundos são sempre criados pela simples vontade de entidades divinas particularmente poderosas ou através de ações míticas heróicas e/ou redentoras.
Nalguns casos, a criação corresponde a uma separação (entre a luz e as trevas, a terra e o mar, o indiferenciado e o organizado) naturalmente ordenadora de uma nova realidade.
Noutros, à emergência da mesma a partir da morte de um monstro do caos primordial.
Os Homens, são criados da terra ou da água; meios ambientes em que estes se movimentam.
Assim como o barro permite a construção de formas que o fogo consolida, a terra constitui a matéria-prima com que os deuses moldam os Homens. Insuflando-lhes, naturalmente, a vida (normalmente identificada com um sopro) que assim surge como um dom sobrenatural.

Os mitos constituem, portanto, um precedente. Cratofanias que advogam, por exemplo, a aprendizagem como algo precioso, imbuído que está da participação na sacralidade primeva. Mesmo que o sujeito envolvido seja o, mais ou menos omnipotente, criador!

Para os Abissínios, Deus criou o Homem por sucessivas tentativas no intento de vir a criar o espécime perfeito; espécie de “santo graal” para os deuses criadores.
Um humanóide cozido em demasia e outro excessivamente cru constituíram os resultados nada brilhantes que emergiram do forno divino, nas duas primeiras experiências. Desagradado, e quiçá algo frustrado, Deus enviou então um para África e outro para a Europa respetivamente, onde se encontram ainda hoje.
Finalmente (os deuses também aprendem), a terceira tentativa redundou em pleno e dela resultou um homem com o tom bronzeado perfeito... o Abissínio!

Como se vê os povos não são modestos consigo próprios. O sentimento nacionalista, refletindo atitudes e interesses étnicos, surge muitas vezes como catalisador de etnocentrismos mais ou menos radicais.
É por isso que os Hebreus, cujo Deus para seu proveito exclusivo irá “fazer o mundo em seis dias” se consideram a si, e só a si, o “Povo Escolhido”!
E os exemplos são diversos. Todos eles referem contudo um tempo primevo, como primevos são os seres sobrenaturais que impõem a ordem no caos, dando origem ao mundo, às estrelas, aos animais e ao Homem.

Em muitos dos modelos civilizacionais, tal adquire, como dissemos, a forma de um combate em que o herói mítico, normalmente uma divindade de atributos solares, enfrenta e vence a serpente/monstro marinho dando origem ao mundo organizado.
Tal implica a morte ritual e violenta do monstro ou gigante primordial, avatar do caos, de cujo corpo irá o mundo constituir-se.
É Apolo que mata Pyton a serpente marinha, como marinha é Tiamat que Marduq vence após portentosa contenda.
É Siegfrid que derrota Fafnir, Indra que decapita Târaka; a serpente marinha adormecida.
É Perseu que corta a cabeça a Medusa e mata igualmente uma serpente marinha, salvando a bela Andrómeda.
Hércules que vence a Hidra das Sete Cabeças, bem ainda como a inevitável Serpente Marinha para libertar a filha de Laomedonte, rei de Tróia.
É ainda, Teseu, que vence o Minotauro.
É Hórus, o Deus/Falcão que trespassa a cabeça de Tyfon ou do dragão Apófis. O próprio Yahwé que cria o universo após a vitória contra o monstro Rahab.
É o nórdico Thor que combate a “Serpente do Mundo”. É o Leviathan, são as Górgonas, é Quetzalcoatl; a “Serpente Emplumada” dos Astecas e Toldecas.

Na realidade todas estas criaturas, monstruosas e primordiais, constituem na sua origem os princípios turbulentos e agitados do caos, postos em ordem pelos deuses solares. Serpentes e dragões, monstros marinhos gigantescos e terríveis, símbolos do tempo antes dos tempos, avatares do oceano primordial cujo desaparecimento vai ordenar o cosmos, cujo sangue fertiliza a terra, cujo corpo forma ilhas e continentes e proporciona o eclodir da vida, do Homem, muitas vezes dos próprios deuses!

Tais monstros constituem, portanto, o catalisador indispensável de qualquer ação heróica. Tais combates refletem-se na Terra, pois esta é o “imago mundi” ou espelho do cosmos. Aqui, como lá, eclode a ordem da criação, da justiça e da civilização, sobre a desordem, a indefinição e a pré-organização.

Combates míticos cujas reminiscências chegam até nós do fundo dos tempos através dos diversos filtros sincréticos, cristianizados sob a forma de lendas como Santa Marta e o Dragão ou, mais frequentemente, “São Jorge e a serpe”.
Aliás, em certas zonas do norte do país, ainda hoje dá lugar a simulações bélicas entre o herói/santo e o terrível dragão, hoje transformado num simpático robot artesanal provido de rodas, que o rapazio conduz no meio do maior alarido e brincadeira.
É a “Coca”, condenada a ser vencida anualmente pelo intrépido guerreiro que a tradição considera ser São Jorge. Ritual que expressa uma sempre renovada hegemonia cristã face a um arquétipo do caos, reconvertido de alguma forma, hoje em dia, em símbolo do mal e do pecado.
 
Combates míticos que sobrevivem, ainda, nos confrontos rituais entre “velhos”, “diabos”, “caretos”, “chocalheiros”, “carochos” ou “farandulos” do nordeste transmontano.
Todos eles simbolizam a vitória da luz sobre as trevas, da ordem sobre o caos, da criação sobre o niilismo primevo, do Sol sobre as forças entrópicas que tendem a anulá-lo e a dissolver a sua energia.

Marcam a transição do estado pré-cósmico; o oceano primevo, caótico, homogéneo e impassível. Caos que há-se ser ordenado pela energia primordial que se liberta de uma grande catástrofe ou epopeia.     
 
Nalguns casos, o monstro reptiliano é substituído por uma divindade, que assume assim o papel de fertilizador/redentor. É o que acontece com Ossíris que, morto e esquartejado por Set, vai através do seu corpo, espalhado pelos quatro cantos do mundo, fecundar a Terra e regenerá-la.
É o que se passa com Jesus, o cordeiro imolado, cujo corpo e sangue absorvidos pelo Homem irão dar origem a um novo mundo que a “nova aliança” simboliza.
O herói ou deus através do seu sacrifício, voluntário ou não, fará fluir as virtudes da ressurreição sobre toda a humanidade.
Efetuando permanentemente o sacrifício como Jesus ou Mitra ou renovando-o ciclicamente como Ossíris, Orfeu ou ainda Dionísio, o deus morre e renasce, deste modo revelando o caminho para a ressurreição, logo salvação!

Assim, todos estes mitos, bem ainda como os de Átis/Tammuz ou de Prometeu, cujo sacrifício é condição necessária à obtenção do conhecimento e à assunção do Homem como ser racional de corpo inteiro, marcam um modelo de rutura ou de cisão que é origem do próprio devir.
Porque o mundo tem de ser periodicamente renovado, recriado, configurando assim um eterno e inevitável retorno.

Ou um eventual e aterrorizante apocalipse final!
 
Que marca o fim dos tempos!
E uma existência de recompensa ou castigo num eventual “reino de Deus” mais ou menos paradisíaco!

 

segunda-feira, 11 de março de 2013

Cosmogonias e Apocalipses

No próximo dia 22 de Março, irei estar presente no CCRS (Forum Mário Viegas) para uma conversa/palestra/conferência subordinada a um tema algo incomum; uma análise comparada dos mitos da criação do mundo nas diversas culturas humanas, ontem e hoje.
Os princípios e fins dos mundos e seus concomitantes desígnios existenciais irão ser objecto de hermenêutica imterpretação.
As concepções entrópicas e a moralização da decadência, tornada pecaminosa. As configurações míticas e os tempos cíclicos e históricos.
Solstícios e calendas.
O tempo entre os tempos; domínio do caos e da desordem.
Os herois solares; criadores do mundo e matadores de dragões!
Os deuses redentores e sacrificiais e os modelos de salvação.
Tudo isto, e problemáticas relacionadas, irão estar em análise e discussão.
Oportunidade soberana, como se vê, para dialogarmos.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Bandarilhas de Ouro de 2012


Diz o povo, na sua secular sabedoria que a experiência suporta, que “em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”!
Que somos casa em que não há pão, é cada vez mais evidente. Que todos ralham, perfeitamente claro. Que a razão deambula, muitas vezes, por lugares que a razão desconhece, salta cada vez mais à vista!
Afinal, o perverso processo de aniquilação do Ribatejo, que, podemos agradecer aos Jorges “Judas” Lacões e aos Miguéis “Vasconcelos” Relvas, assiste agora ao corolário final (há muito anunciado), enquanto a tanga financeira que nos vão impondo, se confunde, cada vez mais, com um elegante fio dental!
Exige-se assim o regresso dos acintosos prémios regionais que, um fim de ciclo, fez interromper.
Denominados, agora, “bandarilhas de ouro”; ou não seja esta arte (dita “brava” e festiva) de agarrar touros de frente, de lado, de trás (e, suponho, também de outros ângulos menos referenciáveis) um autêntico tesouro regional!

 
1 - Prémio “Cadé ela?

Para Miguel Relvas (que após ter ganho de presente uma licenciatura) rejeitará em absoluto ter tido qualquer comportamento ilícito na gestão do dossier das privatizações da REN e da EDP e acusará (com ar devidamente indignado) o Jornal Público, de “denegrir a sua imagem e promover uma campanha contra a sua honra”!

 
2 - Prémio “Quem não tem vergonha…”

E como não podia deixar de ser, para a “Licenciatura Farinha Amparo”, do dito cujo. Exemplo paradigmático do estado, a que o estado do Estado chegou! Em que à impunidade se junta a desvergonha da ilegitimidade e a descarada solidariedade institucional.

 
3 - Prémio “Olh’ó passarão!”

Para António Rodrigues, Presidente da Câmara Municipal de Torres Novas, que admite encerrar a Câmara, às sextas-feiras, para reduzir custos!
Eis, assim, com a simplicidade das coisas geniais, resolvidos de uma penada os problemas financeiros das autarquias. Basta encerrá-las!
Ou será (como diz um amigo torrejano) que estes “custos” são outros. Por exemplo, o custo de ter de trabalhar cinco dias por semana?!

 
4 - Prémio “Fia-te na Virgem…”

Para Luís Loureiro, treinador do Fátima, garantindo que “ainda não pediu nada a Nossa Senhora, mas espera, no final de época, vir agradecer a vitória no campeonato.
Tenha lá paciência amigo Loureiro, mas isso é, como usa dizer-se, uma intolerável tentativa de ganhar na secretaria.
Lesiva da verdade desportiva (já que os outros clubes não possuem uma divindade residente) e afetando, inclusive, a propalada universalidade de Maria.

 
5 - Prémio “Quem sabe, sabe!”

Para Paulo Caldas proferindo uma conferência (em Santarém) sobre gestão autárquica e os quadros comunitários de apoio, enquanto, nesse âmbito, é acusado judicialmente de “denegação da justiça”, peculato e diversos pagamentos indevidos.

 
6 - Prémio “Os carneiros são nossos amigos”

Para Manuel Evangelista, que acusou os eleitos da Assembleia Municipal de Almeirim de “votar em carneirada”.
Amigo Evangelista, o que é que os carneiros lhe fizeram, para em tais companhias os colocar?
Já viu algum carneiro a votar? Deixe lá os bichos em paz!
Porque é que em vez de “votar em carneirada” não diz “votar em boyada”!
Não! Não tem a ver com bois! Tem a ver com “boys”!

 
7 - Prémio “Desplante alentejano”

Para a Câmara Municipal de Santarém que, há mais de dez anos, mantêm um dístico na frontaria do Café Central onde se pode ler em letras garrafais “Brevemente restituiremos este espaço à Cidade!”

 
8 - Prémio “Três em um”

Para a criação da megaempresa municipal “Viver Santarém”.
Proporcionadora de um momento notável, enquanto reflexão filosófica, sobre o sentido das coisas!
Afinal, se o um em três não resultou, mais que resultou o um sem três, porque diabo há-de resultar o três em um?!

 
9 - Prémio “Com amigos destes”

Para a madrinha do Grupo de Forcados de Vila Franca de Xira, ao realçar o papel tauromático dos mesmos, questionando (sem se rir, esclareça-se): “quando os cavaleiros espetam as farpas nos touros que ficam doridos e raivosos (pudera) quem é que salta para a arena para lhes dar um abraço amigo?”

 
10 - Prémio “O paraíso perdido”

Para Moita Flores, no seu modesto balanço de despedida, ao afirmar: “Lançámos o maior investimento de sempre (…) no domínio do saneamento, provocando o maior sobressalto civilizacional, depois da chegada da iluminação”.
Eu diria, mesmo, enfileirando com os mais importantes momentos da História da Humanidade. Ao nível da descoberta do fogo! Da invenção da roda. Da chegada do Homem à Lua!

 
11 - Prémio “O circo veio à cidade”

Ainda para o dito ex-presidente e criminalista, ao afirmar que, no seu mandato, “Santarém se transformou no palco do país e da cultura”.
Atendendo à situação em que estão, tanto a cultura como o país, imagine-se o que, nos últimos anos, por aqui passou!

 
12 - Prémio “Eternos gazeteiros”

Para os alunos do IPS que abandonaram a sala (quando o respetivo Presidente ia iniciar o discurso de abertura do ano lectivo), protestando assim contra a diminuição do período das praxes de dois para um mês.
E fizeram muito bem! Não lhes chegam, já, quase cinco meses de aulas?!!  Ainda querem reduzir os insignificantes dois meses das praxes?!
Querem castrar os jovens ou quê?!!

 
É o pitoresco feito panaceia! A ironia como terapia!
Quantas vezes a desvergonha de quem se não envergonha, da pouca-vergonha que é a sua falta de vergonha!
Enquanto o riso não pagar imposto?
Se é que não paga já….

Estado de sítio


Para combater o omnipresente mercado paralelo (situação natural num dos países do mundo com maior carga fiscal), o Governo pretende exigir faturas em todas as transações; mesmo aquelas tão mixurucas que não valem o papel e o tempo de o preencher.

Para isso pede ajuda aos portugueses!

Tentando transformar, os mesmos, em fiscais das finanças não remunerados!

Delatores, em voluntariado!

Ao serviço de um Estado que não consideramos pessoa de bem!

Muito pelo contrário!

Pedem-nos que acusemos outros (que frequentemente nos são próximos e solidários), de defraudar o tal Estado, que reputamos de injusto e insensível!

O mesmo que concede a liberdade aos condenados da Casa Pia, enquanto mantém preso o único acusado “pé descalço”!

Que cria leis de limitação de velocidade de 120Km/h, enquanto toda a fauna política circula aí, sistemática e impunemente, a mais de 200!

O mesmo em que os ministros conseguem licenciaturas matriculando-se em menos de 10% das cadeiras! E, nem nessas, sequer, são avaliados!

Cujas leis servem propósitos hermenêuticos, exigindo reputados interpretadores que só os ricos podem pagar!

Que permite sistematicamente aos poderosos (enquanto criminosos) saírem impunes por irrelevantes (mas não fortuitas) irregularidades processuais!

Em que os secretários de estado se regozijam com a atual e futura miséria nacional!

Em que o Presidente da República (cujas meras despesas de representação fariam de cada um de nós um abastado morgado) declara que os diversos milhares de euros que aufere não dão para pagar as contas!

Em que “boys” diversos saltitam de cargos públicos para cargos empresariais e vice-versa, em tortuosa simbiose de ilegalidades e corrupções.

É deste Estado que querem que sejamos fiscais!

E ameaçam-nos se não o formos!

Vejam o estado a que isto chegou!

Deslize e pouca-vergonha


A recente intervenção pública do Secretário-Adjunto Carlos Moedas, respeitante ao “Relatório do FMI”, constitui o mais chocante ato político a que tive a desventura de assistir nos últimos tempos.

Sabemos bem como o mercantilismo está implantado nas nossas classes dirigentes. Como as pessoas são, para elas, meros números, rácios e índices económicos.

Contudo, a sua natureza de políticos eleitos tem os obrigado, pelo menos, a circunspetos fingimentos de pesar, quando as medidas que preconizam se anunciam dramáticas para quem os elegeu!

Com Vítor Gaspar, tinha-se passado a um outro nível; o da impassibilidade! Suportada, esta, por supostas competências financeiras. Qual potestade, serena e imperturbável, o mesmo estaria, assim, acima destes irrelevantes danos colaterais a que chamamos fome e miséria!

Com Moedas, atinge-se aquilo que se pode chamar o terceiro nível de desplante: manifesta-se, agora, uma indisfarçável e incontida satisfação com soluções que se sabe irem tornar ainda mais desgraçado, o já desgraçado povo português.

O encantamento com o famigerado “Relatório”, naturalmente alvo de anteriores conversas e apreciações ministeriais, foi de tal maneira intenso, que o dito “boy” se esqueceu de mudar o discurso antes de enfrentar as câmaras!

Mostrando, assim (num impressionante momento de imprudência e insensibilidade) uma cândida euforia; só comparável com criança brincando com saltitante bola colorida.

O choque é assim duplo!

Por um lado, a demonstração clara de estarmos a ser governados por personagens sem pingo de vergonha ou comiseração pela miséria que vão criando em seu redor!

Por outro, a constatação de que algumas das ditas personagens nem sequer parecem já incomodar-se com o facto do seu dourado futuro político passar, naturalmente, pela capacidade cíclica, e sucessivamente reinventada, de enganar o povoléu!

Povoléu, esse, que entretanto bate recordes de audiência em telenovelas e “reality shows”!

Talvez por isso mesmo os “yuppies” que nos governam não se incomodem a fingir. A fingir, sequer, que se incomodam!

Acéfalos e anestesiados (como estamos), desistimos de lutar, desistimos de acreditar, desistimos de nos indignar! Desistimos…

E, se até aqui, ainda nos prometiam um mundo novo, apesar de sempre convenientemente adiado…

Agora, nem a isso, já, se dão ao trabalho!

 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Bandarilhas


Bandarilha de ouro
 
Prémio “Já é má vontade”

Para a Câmara Municipal de Santarém que embirrou com Marina Ladeiras presidente Conselho de Administração da empresa Águas de Santarém. 

Já não bastava a maledicência social acerca da malfadada viagem à Coreia acompanhada de um membro do Conselho de Administração: ambos naturalmente acompanhados dos respetivos conjugues. Afinal, o respeitinho é muito bonito.

Usar um carro da Empresa nas suas deslocações diárias entre Santarém e Cascais (com portagens e combustível incluído), foi o insignificante pretexto para o Município proibir o uso de viaturas da empresa para fins pessoais o que há-de levar, compreensivelmente, à sua demissão.

Enfim! Se a dita cuja tinha um carro distribuído e se as suas funções a obrigavam a estar ao serviço 24 horas por dia, o que é que queriam?

Devia era ter exigido horas extraordinárias!

Nem mais!

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Bandarilha de prata

Prémio “Perfeição orçamental”

Para os orçamentos municipais das câmaras municipais de Salvaterra de Magos, Alpiarça e, principalmente, Chamusca.

Nunca se viu tal! Os orçamentos municipais de Alpiarça e Salvaterra de Magos aprovados sem qualquer intervenção da oposição! O da Chamusca, mais ainda, aprovado por unanimidade!

O que quer dizer uma de duas coisas: ou os mesmos não possuem ponta de imperfeição ou as oposições não possuem ponta de competência.

Naturalmente, esta segunda hipótese é inconcebível!

 

 
Bandarilha de bronze

Prémio “A verdade da mentira”

Para o jovem João Simões que na conferência de Henrique Granadeiro, em Santarém, afirmará que “os políticos têm de mudar para convencerem a população”.

Santa ingenuidade!

Infelizmente não têm!

Mais afirmará, ainda,“ou então a relação vai ser cada vez mais distante!”

Pois,…. diríamos nós!

Acontece que os ditos não pretendem aproximar-se. Pretendem, apenas, ser eleitos.

E, afinal, temos de votar em alguém!

Mesmo que não votemos!

 

 

 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Deslize e pouca-vergonha


 
A recente intervenção pública do Secretário-Adjunto Carlos Moedas, respeitante ao “Relatório do FMI”, constitui o mais chocante ato político a que tive a desventura de assistir nos últimos tempos.

Sabemos bem como o mercantilismo está implantado nas nossas classes dirigentes. Como as pessoas são, para elas, meros números, rácios e índices económicos.

Contudo, a sua natureza de políticos eleitos tem os obrigado, pelo menos, a circunspetos fingimentos de pesar, quando as medidas que preconizam se anunciam dramáticas para quem os elegeu!

Com Vítor Gaspar, tinha-se passado a um outro nível; o da impassibilidade! Suportada, esta, por supostas competências financeiras. Qual potestade, serena e imperturbável, o mesmo estaria, assim, acima destes irrelevantes danos colaterais a que chamamos fome e miséria!

Com Moedas, atinge-se aquilo que se pode chamar o terceiro nível de desplante: manifesta-se, agora, uma indisfarçável e incontida satisfação com soluções que se sabe irem tornar ainda mais desgraçado, o já desgraçado povo português.

O encantamento com o famigerado “Relatório”, naturalmente alvo de anteriores conversas e apreciações ministeriais, foi de tal maneira intenso, que o dito “boy” se esqueceu de mudar o discurso antes de enfrentar as câmaras!

Mostrando, assim (num impressionante momento de imprudência e insensibilidade) uma cândida euforia; só comparável com criança brincando com saltitante bola colorida.

O choque é assim duplo!

Por um lado, a demonstração clara de estarmos a ser governados por personagens sem pingo de vergonha ou comiseração pela miséria que vão criando em seu redor!

Por outro, a constatação de que algumas das ditas personagens nem sequer parecem já incomodar-se com o facto do seu dourado futuro político passar, naturalmente, pela capacidade cíclica, e sucessivamente reinventada, de enganar o povoléu!

Povoléu, esse, que entretanto bate recordes de audiência em telenovelas e “reality shows”!

Talvez por isso mesmo os “yuppies” que nos governam não se incomodem a fingir. A fingir, sequer, que se incomodam!

Acéfalos e anestesiados (como estamos), desistimos de lutar, desistimos de acreditar, desistimos de nos indignar! Desistimos…

E, se até aqui, ainda nos prometiam um mundo novo, apesar de sempre convenientemente adiado…

Agora, nem a isso, já, se dão ao trabalho!