*********************************************************************************************************************************************************************

Espaço de comunicação que se espera interactivo, este é um instrumento que permite estar próximo de amigos,presentes e futuros, cujas contingências da vida tornam distantes mas nem por isso menos merecedores de estimas e afectos.


**********************************************************************************************************************************************************************


domingo, 14 de maio de 2017

A 13 de MAIO na COVA da IRIA


Após o recente lançamento público do meu livro "A 13 de MAIO na COVA da IRIA" acontecido, sábado, dia 13, na FNAC do Colombo, em Lisboa, será brevemente realizada uma, já divulgada, apresentação pública do mesmo, no próximo sábado, dia 20 de Maio, às 16 horas, na Sala de Leitura Bernardo Santareno, em Santarém.
A obra, de cerca de 280 páginas, tem a chancela da Ego Edições e debruça-se sobre a problemática das aparições de Fátima numa perspectiva antropológica.
As razões sociais culturais e políticas que desencadearam os fenómenos, a idiossincrasia dos videntes, a natureza dos testemunhos e os posteriores mecanismos de construção ideológica do santuário constituem matéria que, objeto de análise metodológicas a partir dos dados disponíveis, fornecem uma sustentada versão científica.
Apresenta-se afinal, este estudo, como uma tentativa de enquadrar antropologicamente os fenómenos fatimitas, num contexto cultural, temporal e territorialmente bem definido. Não só nos momentos das suas epifanias primevas mas, ainda, durante o sequente processo adequador que, iniciado na década de vinte de novecentos, há-de chegar até meados do mesmo século.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Entrevista concedida à EGO Edições, a propósito da publicação, próxima, do estudo "A 13 de Maio na Cova da Iria: Uma visão antropológica das Aparições de Fátima"



1 - Para quem não o conhece, quem é Aurélio Lopes?
As auto caraterizações são quase sempre pouco rigorosas e pouco sinceras, já agora. Portanto (e para falar apenas da valência cultural) poderei dizer que, mais que alguém que é um observador da realidade por disposição, sou professor por opção e, essencialmente, investigador por vocação.

2 – Os fenómenos religiosos, tais como as Aparições de Fátima, despertam a sua curiosidade? O que vê nestes fenómenos que o fascina?
Todas as áreas do conhecimento me fascinam.
Especialmente aquelas em que tentamos perceber o universo que nos envolve e da qual somos parte ínfima; embora não irrelevante.
E dentro dessas, aquelas que mostram que os Homens, desde sempre, lidaram mal com respostas temporárias e parciais. E buscam na transcendentalidade (doutrinária ou não) respostas acabadas e absolutas.

3 – Com a publicação do livro “A 13 de Maio na Cova da Iria”, revela detalhes desconhecidos do grande público sobre as Aparições de Fátima. Qual o impacto que antevê que essas revelações possam ter na sociedade?
Os detalhes (sejam eles quais forem) resultam da análise e interpretação de documentos não herméticos ou ignotos e, portanto, à disposição de quem os procure. As conclusões (sempre as possíveis) resultam, do enquadramento dos mesmos em conhecimentos estruturais de base e da aplicação de conhecidos processos de metodologia científica.
Não se trata, portanto, de nenhuma revelação ou inspiração divinas.
Mais, com certeza, de uma certa dedicação e transpiração profanas.

4 – Pensa que poderá haver alguma alteração da forma como o Santuário de Fátima e as Aparições são percecionadas pelo público católico com a publicação deste livro? 
Não acho que isso venha a ser muito visível. Para alguns servirá, com certeza, como repensar de verdades que se julgavam pacíficas. Para outros, como reforço (positivo ou negativo) de interpretações em aberto.
Contudo tal tenderá a acontecer enquanto processos individuais e íntimos.
Afinal, este estudo é mais uma contribuição no sentido de fornecer aos crentes e não crentes uma outra forma de entenderem os respetivos fenómenos.
Vivemos num mundo em que a nossa perceção se vai construindo a partir da súmula de dados e opiniões a que vamos tendo acesso.
Que este livro seja mais uma ferramenta para formarmos (ou reformarmos) as nossas convicções.

5 – A 13 de maio deste ano, o Papa visita o Santuário por ocasião do centenário das Aparições. Pensa que a Igreja poderá vir a canonizar os três pastorinhos sem a necessária realização de um milagre por sua intercessão? 
Acho que a canonização é inevitável (até para abrir caminho à necessária canonização de Lúcia, de forma a prestigiar a personagem que, afinal, esteve na origem do grande “altar do mundo” que Fátima, hoje, é.
E daí, também, a Igreja ter admitido canonizar, os ditos, mesmo na ausência do determinante milagre probatório. Tal como, há algum tempo, o admitiu o Cardeal português Saraiva Martins; responsável pela Congregação da Causa dos Santos.
Mas não foi preciso recorrer a tal.
Foi tornado público, muito recentemente, o despontar do tão ansiado e conveniente milagre (relacionado com a cura, por intermediação dos “pastorinhos”, de uma criança brasileira) confirmando-se, assim, o esperado acelerar dos processos.
Não conheço, naturalmente, o plano de atividades da Igreja. Mas, de forma conclusiva ou simplesmente de predisposição, esse será um assunto, aí, provavelmente anunciado.

6 – Tem planos para próximos títulos?
Manter-se-ão na área temática da cultualidade popular. Entre outras opções avulta o processo de investigação (já em curso) relacionado com o culto peculiar de São Gonçalo, numa investigação transatlântica: leia-se efetuado, simultaneamente, em Portugal e no Brasil; de forma convergente e numa óptica da perceção dos processos e condições de mudança.


sexta-feira, 3 de março de 2017

I Encontro de Cultura Popular do Ribatejo



- Auditório Municipal, Barquinha, 24 de Junho de 2017 -

Região especialmente heterogénea, o Ribatejo, carece de uma análise social e cultural que permita perceber a sua matriz conceptual em volta da qual a ideia de Região se estruture e desenvolva.
Se a identidade cultural, seja a que nível de abrangência for, é feita de identidades múltiplas, o Ribatejo pode e deve ser visto, precisamente, como oportunidade e cadinho de análises experimentais multivalentes e diversificadas, como diversificadas são as matrizes culturais e, até sociais, em presença.
Na sequência de anteriores ações, mais específicas, desenvolvidas pelo Fórum Ribatejo, o I Encontro de Cultura Popular do Ribatejo (realizado em parceria com a Câmara Municipal da Barquinha) surge, agora, como necessidade de refletir o Ribatejo e dar mostra da produção teórica que os últimos anos têm permitido fazer emergir nesta região. 
Procura interrogar o que podemos compreender, hoje, à luz dos mais atuais e diversos conhecimentos; em temáticas como identidade, mitologia regional, trabalho, relações sociais e
de género, saúde e alimentação.
Para tal, ambiciona suscitar um diálogo aberto e partilhado entre investigadores oriundos dos mais diversos campos científicos: das humanidades à geofísica, da economia ao património e turismo e demais domínios do conhecimento. 
Articulando, neste contexto, o nosso passado histórico com o presente, procurar-se-á examinar as representações diacrónicas do corpo social e cultural, da economia e desenvolvimento regional e local, bem como questionar a importância dos fatores identitários, enquanto mecanismos que, ontem e hoje, produzem ou não, em cada um de nós, um sentimento de pertença.
Pretende-se perceber, ainda, a importância histórico-cultural da matriz agrícola, numa região que aí assenta, afinal, as condições primordiais da sua existência.
.
Com um leque temático abrangente e interpelando investigadores de áreas diversas, o I Encontro de Cultura Popular do Ribatejo visa, assim, lançar um debate que se mantém atual e que corresponde aos interesses de um número crescente de investigadores e de público:
Quais as razões que sustentam, hoje, a manutenção de uma ideia de Ribatejo?
Isto, numa altura em que as regiões administrativas terminaram, já, há muito e os próprios distritos (no nosso caso quase coincidentes), desapareceram igualmente.

Dirigindo-se, naturalmente, a todos os profissionais das áreas da cultura e do social, assim como à comunidade científica e, em especial, aos investigadores das áreas das ciências sociais, professores dos diversos graus de ensino, técnicos culturais da administração regional e autárquica e profissionais de turismo e património.
Todos os segmentos, afinal, de um público-alvo particularmente alargado.

Linhas temáticas
- As mitologias ribatejanas; funcionalidades ontem e hoje.
- O trabalho e as relações de género na cultura ribatejana.
- Terapêuticas, saúde e condições alimentares.
- Identidades culturais e variabilidades num contexto de contemporaneidade.
Informações complementares
O prazo considerado para divulgação da respetiva iniciativa serão os meses de Fevereiro e Março, período de tempo em que vigorará o prazo de inscrição para a apresentação de comunicações a integrar nos trabalhos.
A apresentação deverá constar de uma síntese até quinze linhas, título e palavras-chave.
Deverá ser, ainda, acompanhada de uma síntese biográfica curricular com o máximo de doze linhas. As mesmas deverão ser acompanhadas de endereços de contacto telefónico e de mail.
A apresentação de textos comunicacionais não apresentará, para o autor, quaisquer encargos.
No eventual processo de seleção serão tidos em conta a respetiva ordem de entrada, aspetos de adequação aos temas previstos e respetivas relevâncias.
Dos resultados de avaliação serão fornecidas as devidas informações aos respetivos candidatos, num prazo que decorre até ao dia 15 de Abril.

Contatos
Mail de registo de candidatura e de presença:
                                                           gabriela.rodrigues@cm-vnbarquinha.pt
Telefones de contato e prestações de esclarecimento:
                                                              249 720 358/  927 410 436/966 765 309

Quebrar vasilhas pelo Entrudo





O modelo entrópico da temporalidade arcaica, confere à existência uma necessidade de recriação ritual, condição única para uma indispensável regeneração do tempo e da vida. Inspirando-se no crescimento e decrescimento do domínio diurno do Sol e no apogeu e declínio lunar, paradigmas de uma degeneração cíclica, ou ainda na sazonalidade vegetativa, feita de crescimento, maturação e morte, sempre as conceções cosmogónicas do Homem foram entendidas como modelo da recriação periódica do Cosmos.
Poder-se-á dizer, então, que para as conceções ideológicas arcaicas, mais que quaisquer outras, todo o mundo é, como diz o poeta, especialmente “composto de mudança”!
Mudança que exige uma imersão cíclica no caos, no limbo primevo! Condição purificadora indispensável para um novo começo. Começo gerado, em sentido estrito, a partir do nada absoluto!
A anulação ritual, cíclica e radical, gera assim um novo mundo e uma nova existência, numa dimensão perpétua do devir.
Mas a perfeição do começo exige a destruição do velho. A transmutação exige a dissolução das formas existentes, por imersão no caos social e cultural. Orgias e subversões, saturnais e bacanais, inversões da ordem e desregramentos sociais. Em qualquer dos casos, tanto no plano cósmico como vegetal ou humano, trata-se de um retorno à unidade primordial.
Destruição inevitável que é também irreversível! Um novo mundo torna-se possível (apenas e só) através de um regresso às origens, aos primórdios, que o mito consagra e o rito permite.

De diversas formas a tradição consagrou esta rejeição do tempo passado, velho e gasto, com o inverno ou com a morte do sol ou do ano, identificado.
A morte simbólica de uma figura antropomorfa (efigie ou homem transvertido) através do ato ritual de “enterrar”, “queimar”, afogar ou despedaçar é quase omnipresente.
Bonecos, usualmente de palha, eram em tempos idos queimados afogados, expulsos e destruídos, apoteótica e alegremente, durante os grandes festivais de inverno. Manifestações de “caretos” ou “chocalheiros”, “serrar a velha”, “enterrar o entrudo”, “queimar o judas” ou “queimar/chocalhar as comadres” constituem reminiscências ancestrais onde tais personagens ainda recentemente eram (e, nalguns casos pontuais, ainda são) solenemente destruídos, simbolizando-se assim a morte do “ano velho”; paradigma de uma existência gasta e degenerada.
Da mesma forma, a conceção de que o barulho, só por si, é susceptível de esconjurar males e malefícios radica numa tradição milenar que faz parte do complexo cultural mediterrâneo.

Naturalmente, o Carnaval irá herdar estas práticas. Em Almeida, tal como em Almofala-Castro D’Aire ou na povoação bragançana de Pudence, era nessa altura que os rapazes corriam desenfreados pelas ruas agitando os inevitáveis chocalhos e fazendo uma barulheira infernal.
Em Monsanto da Beira, Fevereiro era o “mês da capadela” em que a “canalha miúda” andava pela rua com grandes chocalhos fazendo um grande alarido
Em Pitôes das Júnias-Montalegre, os “farrapões”, homens e moços vestidos de andrajos (utilizando máscaras de papelão e portadores igualmente de chocalhos e campainhas), tinham por hábito, nessa altura, correr pelas ruas em desatino e proceder a impertinências várias que só a especial permissividade carnavalesca tornava possível

Mas o mesmo objetivo podia, ainda, ser alcançado através da destruição ritual de algo que simbolizasse o período que terminava tal como é visível nalgumas versões das “caqueiradas” ou no “jogo da panela”.
Sabe-se como o quebrar de vasilhas de barro possuía, igualmente, nas sociedades tradicionais o sentido, simbólico, da destruição que antecede uma nova etapa de existência.
Quebrar uma vasilha de barro, ou de vidro, cheia de óleo ou vinho, corresponde tradicionalmente ao terminar simbólico de um período e ao início do outro. A ideia ritual subjacente a este acto conjuga, de alguma forma, a atitude de destruição necessária à criação, com a ação cerimonial de aspersão líquida; símbolo do caos donde emerge a ordem.
Por isso o aspergir de vinho se perpetuou como símbolo festivo de um novo período ou tarefa. Veja-se o acto de beber vinho na entrada de cada ano (individual, religioso ou civil) ou em qualquer período inaugurativo. O surgimento do espumante permite afinal, funcionalmente, a ação de aspersão, sem constituir um óbice, determinante, à libação.

Por isso, nalgumas zonas do país, a tradição mandava que, no fim do carnaval, se quebrassem sistematicamente as quartas e talhas velhas ou partidas (símbolos da carne e azeite que tinham contido), entendido, isto, como um rito de passagem para um novo tempo anual; uma nova quadra do calendário eclesiástico.
Era o caso das “caqueiradas”! Telhas e pedras aquecidas atiradas altas horas da noite assustando e queimado os velhos aí residentes, constituindo atitudes de completa afronta da privacidade e dignidade dos outros,
Nalguns casos o costume parece corresponder a uma versão híbrida em que a dimensão do jogo não está, ainda bem definida. É o que se verificava em Murça no, ali denominado, “domingo da caqueirada”, em que era tradição as pessoas transportarem para a rua toda a louça de barro imprestável, e aí começarem a atirá-la (leia-se jogá-la), uns contra os outros, até a desfazer em cacos.

Daí, ou de algo parecido, pode ter evoluído o padrão lúdico em presença em muitas zonas do país, em que a dita destruição ritual dos recipientes de barro deu origem ao popular “jogo da panela”; também dito da “cântara”, da “quarta” ou do “quartão”,
Jogo que animava jovens e adultos pelo estrépito da cacaria, quando algum mais descuidado ou azarado a deixava escapar por entre os dedos, sujeitando-se depois à chacota dos companheiros.
E dava corpo, afinal, a um dos costumes mais populares do nosso “entrudo” de antanho.
Inclusive no Ribatejo.