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Espaço de comunicação que se espera interactivo, este é um instrumento que permite estar próximo de amigos,presentes e futuros, cujas contingências da vida tornam distantes mas nem por isso menos merecedores de estimas e afectos.


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sexta-feira, 3 de março de 2017

I Encontro de Cultura Popular do Ribatejo



- Auditório Municipal, Barquinha, 24 de Junho de 2017 -

Região especialmente heterogénea, o Ribatejo, carece de uma análise social e cultural que permita perceber a sua matriz conceptual em volta da qual a ideia de Região se estruture e desenvolva.
Se a identidade cultural, seja a que nível de abrangência for, é feita de identidades múltiplas, o Ribatejo pode e deve ser visto, precisamente, como oportunidade e cadinho de análises experimentais multivalentes e diversificadas, como diversificadas são as matrizes culturais e, até sociais, em presença.
Na sequência de anteriores ações, mais específicas, desenvolvidas pelo Fórum Ribatejo, o I Encontro de Cultura Popular do Ribatejo (realizado em parceria com a Câmara Municipal da Barquinha) surge, agora, como necessidade de refletir o Ribatejo e dar mostra da produção teórica que os últimos anos têm permitido fazer emergir nesta região. 
Procura interrogar o que podemos compreender, hoje, à luz dos mais atuais e diversos conhecimentos; em temáticas como identidade, mitologia regional, trabalho, relações sociais e
de género, saúde e alimentação.
Para tal, ambiciona suscitar um diálogo aberto e partilhado entre investigadores oriundos dos mais diversos campos científicos: das humanidades à geofísica, da economia ao património e turismo e demais domínios do conhecimento. 
Articulando, neste contexto, o nosso passado histórico com o presente, procurar-se-á examinar as representações diacrónicas do corpo social e cultural, da economia e desenvolvimento regional e local, bem como questionar a importância dos fatores identitários, enquanto mecanismos que, ontem e hoje, produzem ou não, em cada um de nós, um sentimento de pertença.
Pretende-se perceber, ainda, a importância histórico-cultural da matriz agrícola, numa região que aí assenta, afinal, as condições primordiais da sua existência.
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Com um leque temático abrangente e interpelando investigadores de áreas diversas, o I Encontro de Cultura Popular do Ribatejo visa, assim, lançar um debate que se mantém atual e que corresponde aos interesses de um número crescente de investigadores e de público:
Quais as razões que sustentam, hoje, a manutenção de uma ideia de Ribatejo?
Isto, numa altura em que as regiões administrativas terminaram, já, há muito e os próprios distritos (no nosso caso quase coincidentes), desapareceram igualmente.

Dirigindo-se, naturalmente, a todos os profissionais das áreas da cultura e do social, assim como à comunidade científica e, em especial, aos investigadores das áreas das ciências sociais, professores dos diversos graus de ensino, técnicos culturais da administração regional e autárquica e profissionais de turismo e património.
Todos os segmentos, afinal, de um público-alvo particularmente alargado.

Linhas temáticas
- As mitologias ribatejanas; funcionalidades ontem e hoje.
- O trabalho e as relações de género na cultura ribatejana.
- Terapêuticas, saúde e condições alimentares.
- Identidades culturais e variabilidades num contexto de contemporaneidade.
Informações complementares
O prazo considerado para divulgação da respetiva iniciativa serão os meses de Fevereiro e Março, período de tempo em que vigorará o prazo de inscrição para a apresentação de comunicações a integrar nos trabalhos.
A apresentação deverá constar de uma síntese até quinze linhas, título e palavras-chave.
Deverá ser, ainda, acompanhada de uma síntese biográfica curricular com o máximo de doze linhas. As mesmas deverão ser acompanhadas de endereços de contacto telefónico e de mail.
A apresentação de textos comunicacionais não apresentará, para o autor, quaisquer encargos.
No eventual processo de seleção serão tidos em conta a respetiva ordem de entrada, aspetos de adequação aos temas previstos e respetivas relevâncias.
Dos resultados de avaliação serão fornecidas as devidas informações aos respetivos candidatos, num prazo que decorre até ao dia 15 de Abril.

Contatos
Mail de registo de candidatura e de presença:
                                                           gabriela.rodrigues@cm-vnbarquinha.pt
Telefones de contato e prestações de esclarecimento:
                                                              249 720 358/  927 410 436/966 765 309

Quebrar vasilhas pelo Entrudo





O modelo entrópico da temporalidade arcaica, confere à existência uma necessidade de recriação ritual, condição única para uma indispensável regeneração do tempo e da vida. Inspirando-se no crescimento e decrescimento do domínio diurno do Sol e no apogeu e declínio lunar, paradigmas de uma degeneração cíclica, ou ainda na sazonalidade vegetativa, feita de crescimento, maturação e morte, sempre as conceções cosmogónicas do Homem foram entendidas como modelo da recriação periódica do Cosmos.
Poder-se-á dizer, então, que para as conceções ideológicas arcaicas, mais que quaisquer outras, todo o mundo é, como diz o poeta, especialmente “composto de mudança”!
Mudança que exige uma imersão cíclica no caos, no limbo primevo! Condição purificadora indispensável para um novo começo. Começo gerado, em sentido estrito, a partir do nada absoluto!
A anulação ritual, cíclica e radical, gera assim um novo mundo e uma nova existência, numa dimensão perpétua do devir.
Mas a perfeição do começo exige a destruição do velho. A transmutação exige a dissolução das formas existentes, por imersão no caos social e cultural. Orgias e subversões, saturnais e bacanais, inversões da ordem e desregramentos sociais. Em qualquer dos casos, tanto no plano cósmico como vegetal ou humano, trata-se de um retorno à unidade primordial.
Destruição inevitável que é também irreversível! Um novo mundo torna-se possível (apenas e só) através de um regresso às origens, aos primórdios, que o mito consagra e o rito permite.

De diversas formas a tradição consagrou esta rejeição do tempo passado, velho e gasto, com o inverno ou com a morte do sol ou do ano, identificado.
A morte simbólica de uma figura antropomorfa (efigie ou homem transvertido) através do ato ritual de “enterrar”, “queimar”, afogar ou despedaçar é quase omnipresente.
Bonecos, usualmente de palha, eram em tempos idos queimados afogados, expulsos e destruídos, apoteótica e alegremente, durante os grandes festivais de inverno. Manifestações de “caretos” ou “chocalheiros”, “serrar a velha”, “enterrar o entrudo”, “queimar o judas” ou “queimar/chocalhar as comadres” constituem reminiscências ancestrais onde tais personagens ainda recentemente eram (e, nalguns casos pontuais, ainda são) solenemente destruídos, simbolizando-se assim a morte do “ano velho”; paradigma de uma existência gasta e degenerada.
Da mesma forma, a conceção de que o barulho, só por si, é susceptível de esconjurar males e malefícios radica numa tradição milenar que faz parte do complexo cultural mediterrâneo.

Naturalmente, o Carnaval irá herdar estas práticas. Em Almeida, tal como em Almofala-Castro D’Aire ou na povoação bragançana de Pudence, era nessa altura que os rapazes corriam desenfreados pelas ruas agitando os inevitáveis chocalhos e fazendo uma barulheira infernal.
Em Monsanto da Beira, Fevereiro era o “mês da capadela” em que a “canalha miúda” andava pela rua com grandes chocalhos fazendo um grande alarido
Em Pitôes das Júnias-Montalegre, os “farrapões”, homens e moços vestidos de andrajos (utilizando máscaras de papelão e portadores igualmente de chocalhos e campainhas), tinham por hábito, nessa altura, correr pelas ruas em desatino e proceder a impertinências várias que só a especial permissividade carnavalesca tornava possível

Mas o mesmo objetivo podia, ainda, ser alcançado através da destruição ritual de algo que simbolizasse o período que terminava tal como é visível nalgumas versões das “caqueiradas” ou no “jogo da panela”.
Sabe-se como o quebrar de vasilhas de barro possuía, igualmente, nas sociedades tradicionais o sentido, simbólico, da destruição que antecede uma nova etapa de existência.
Quebrar uma vasilha de barro, ou de vidro, cheia de óleo ou vinho, corresponde tradicionalmente ao terminar simbólico de um período e ao início do outro. A ideia ritual subjacente a este acto conjuga, de alguma forma, a atitude de destruição necessária à criação, com a ação cerimonial de aspersão líquida; símbolo do caos donde emerge a ordem.
Por isso o aspergir de vinho se perpetuou como símbolo festivo de um novo período ou tarefa. Veja-se o acto de beber vinho na entrada de cada ano (individual, religioso ou civil) ou em qualquer período inaugurativo. O surgimento do espumante permite afinal, funcionalmente, a ação de aspersão, sem constituir um óbice, determinante, à libação.

Por isso, nalgumas zonas do país, a tradição mandava que, no fim do carnaval, se quebrassem sistematicamente as quartas e talhas velhas ou partidas (símbolos da carne e azeite que tinham contido), entendido, isto, como um rito de passagem para um novo tempo anual; uma nova quadra do calendário eclesiástico.
Era o caso das “caqueiradas”! Telhas e pedras aquecidas atiradas altas horas da noite assustando e queimado os velhos aí residentes, constituindo atitudes de completa afronta da privacidade e dignidade dos outros,
Nalguns casos o costume parece corresponder a uma versão híbrida em que a dimensão do jogo não está, ainda bem definida. É o que se verificava em Murça no, ali denominado, “domingo da caqueirada”, em que era tradição as pessoas transportarem para a rua toda a louça de barro imprestável, e aí começarem a atirá-la (leia-se jogá-la), uns contra os outros, até a desfazer em cacos.

Daí, ou de algo parecido, pode ter evoluído o padrão lúdico em presença em muitas zonas do país, em que a dita destruição ritual dos recipientes de barro deu origem ao popular “jogo da panela”; também dito da “cântara”, da “quarta” ou do “quartão”,
Jogo que animava jovens e adultos pelo estrépito da cacaria, quando algum mais descuidado ou azarado a deixava escapar por entre os dedos, sujeitando-se depois à chacota dos companheiros.
E dava corpo, afinal, a um dos costumes mais populares do nosso “entrudo” de antanho.
Inclusive no Ribatejo.



sábado, 18 de fevereiro de 2017

Milagres convenientes




Alguns dias atrás, a propósito do processo, em curso, da beatificação de Lúcia de Jesus (a vidente de Fátima), publiquei um artigo num periódico regional digital (sob o titulo “Milagres anunciados”) em que comentava um milagre, na altura divulgado (relacionado com uma questão da fertilização feminina) entretanto incluído no respetivo processo de beatificação.
Dizia, aí, que a canonização de Lúcia iria ser especialmente breve e que isso era algo que se deduzia da necessidade, evidente, “de prestigiar a personagem que, afinal, esteve na origem do grande “altar do mundo” que Fátima, hoje, é”.
E, ainda, que o citado milagre “que, pouco após a sua morte tive oportunidade de prever (embora não conste que possua capacidades premonitórias; transcendentais ou não) ”é, afinal, perfeitamente previsível e até inevitável como decorrência, mais ou menos evidente, que é, das respetivas circunstâncias”.
O busílis da questão, como também era dito, “é que não se compreende que Lúcia seja canonizada sem que os primos, que morreram oito ou nove décadas antes, o não sejam!”
Ora estes encontram-se encalhados no nível de beatos por razões a que, também, por mais de uma vez me referi: pelo facto das duas crianças não constituírem, hoje, focos místicos operativos. O que os torna pouco eficazes enquanto elementos de solicitação de graças por parte dos crentes: cuja atitude devocional se focaliza hoje, diretamente, na divindade.
Daí o impasse do processo de canonização dos, assim chamados, “pastorinhos de Fátima”.
E daí também o facto da Igreja se preparar para canonizar os ditos mesmo, se necessário for, na ausência do determinante milagre probatório (um milagre, esclareça-se, em que os mesmos estejam taumaturgicamente envolvidos), tal como, afinal, já há algum tempo admitiu o Cardeal português Saraiva Martins; responsável pela Congregação da Causa dos Santos.
E, terminava o artigo, dizendo que, se assim é, “pelos vistos têm que se despachar”.
Pois “a canonização de Lúcia, como se previa, está já aí”.
Curiosamente (e apesar da tal inexistência de capacidades premonitórias mais ou menos paranormais) dois ou três dias depois (a aproximação rápida da data do centenário e a vinda do Papa obrigam a estas celeridades) uma nova notícia revelava, agora, o surgimento do tão ansiado e conveniente milagre (relacionado com a cura, supostamente por intermediação dos “pastorinhos”, de uma criança brasileira) confirmando-se, assim, o acelerar dos processos.
E não é que não foi, sequer, preciso proceder à dita santificação utilizando um critério que sendo legal (afinal a vida piedosa é, só por si, susceptível de garantir a santificação) surgiria sempre como algo forçado e incompleto?!
Haja Deus!